Rian Santos
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Jamais fiz segredo de meus desafetos. Os falsetes da banda Calcinha Preta, por exemplo, sempre os releguei ao pé da página, a vala comum dedicada aos releases que celebram o sucesso de natureza estritamente comercial.
Com o passar dos anos, entretanto, o romantismo de uma penúria abnegada, o preço cobrado a quem prefere ostentar a pureza das convicções artísticas ao invés de faturar alto com o alegado talento, soa cada vez mais forçado aos meus ouvidos. Há quem diga que todos os homens têm um preço. Eu não chego a tanto, mas começo a cogitar sobre o valor de minha cabeça calva no acanhado mercado de ideias local.
Ao longo de duas décadas batendo prego na redação deste Jornal do Dia, evitei fazer grandes concessões. Aqui e ali, carreguei a mão em meia dúzia de adjetivos, a fim de levantar a bola de artistas carentes de aplausos, eu confesso. Mais das vezes, entretanto, dediquei-me a apontar o dedo duro orientado por paixão declarada, com absoluto rigor, verborrágico, a ponto de ser tomado por um fio desencapado.
A recompensa nem sempre foi paga na mesma moeda. Rasteiras, tapetes puxados, a picuinha comum a toda cena emergente, fazem pensar no proveito pouco das frágeis alianças firmadas em favor da sensibilidade nativa.
Enquanto os caranguejos da aldeia puxam uns aos outros, confinados em panelinhas de caldo ralo, o dono da Calcinha Preta faz dinheiro como gente grande, lota estádios, cativa multidões, like a Rolling Stone.
Não à toa, a banda foi a primeira atração anunciada do Réveillon 2026, a ser realizado pela Prefeitura de Aracaju. Cafona demais para o meu gosto, um sucesso mensurado em número de views em todas as plataformas de streaming.


