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Ciência e Preconceitos: Origens nos Séculos XVIII e XIX


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Publicado em 31 de outubro de 2023
Por Jornal Do Dia Se


* Abraham B. Sicsú

Época confusa. Muitas demonstrações de preconceito. Anti-semitismo e anti-islamismo. Mundo a fora. Preocupações que se intensificam com o conflito atual no Oriente Médio.
Uma reunião semanal. O tema não podia ser outro. As angústias se generalizam. Quando vai parar? As repercussões mundo afora, os sentimentos de revolta, as reações de ódio, os interesses envolvidos. A insegurança dos que se manifestam, não interessa o lado ou posição política, radicais extremistas, fanáticos sempre surgem para afrontar, para gerar pânico.
Um colega escuta atento. Postas as visões outras, refere-se à importância de melhor conhecer a História, o formar do pensamento que leva à posições exacerbadas, à formação de preconceitos. Sugere a leitura de um autor que se dedicou ao tema. Mostro interesse. Dia seguinte deixa em casa um livro, “A História do Anti-semitismo III; De Voltaire a Wagner”, de León Poliakov.
León, judeu russo que viveu na Itália, Alemanha e se estabeleceu na França, viveu de 1910 a 1997. Historiador que se dedicou ao estudo do preconceito contra os judeus. Foi Diretor de Pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica na França-CNRS e recebeu vários prêmios pelas importantes obras que escreveu.
Li com muito interesse. Não tenho condições intelectuais de fazer uma resenha aprofundada, não é o objetivo deste texto. Aliás, ele mesmo a faz no capítulo de conclusões. Rigoroso em sua profissão fez vasta pesquisa científica e o nível de detalhes de sua descrição é impressionante. Esta obra, em particular, se atém aos séculos XVIII e XIX, época de profundas modificações na Europa em relação à comunidade judaica e à consolidação dos Estados Nações. Quero apenas ressaltar alguns pontos que me parecem importantes.
Em primeiro lugar, localizar no século das Luzes, do Iluminismo, tão importante na formação de nossa cultura ocidental moderna, raízes do estado atual da questão judaica.
Todos os lideres da Revolução francesa se manifestaram. Se em Rosseau e Montesquieu se encontra uma posição menos beligerante, em Voltaire a virulência é indiscutível. Todos os males da sociedade burguesa adviriam de um grupo voltado para o mal e corruptor, ou seja, os judeus, por serem perdulários, gerarem intriga e pensarem apenas em seus interesses.
Um aspecto que impressiona é o desvio da análise da questão. Se em séculos passados se atinha à questões religiosas, basicamente ao Deisídio, atribuindo aos judeus a morte de Jesus, passasse para uma questão de raças.
E nessa, a Ciência é fonte de sustentação. Assumindo que existem raças superiores e inferiores. Assumindo que é da genética a origem dos seres maléficos e dos seres superiores.
Nessa direção, os camitas, negros da África Oriental, já apresentariam fisicamente esses aspectos, seja pela cor da pele, pelos cabelos, pelas narinas.
Nos semitas, judeus e árabes, também se procurou traços físicos, como as narinas que apresentam, ou o odor que têm. Mas, pior, é na alma que as origens genéticas foram buscadas, na manipulação financeira, na sua aversão ao trabalho braçal, na figura do explorador voraz da sociedade ordeira. Obras como Morte em Veneza e Protocolos dos Sábios do Sião são exemplos patentes.
Só os arianos, deviam ser chamados por semelhança às outras tribos de Israel de jafitas, teriam características superiores e seriam os verdadeiros humanos. Notar que isso vem, no mínimo, do século XVIII e a Ciência da época deu-lhe sustentação.
Aspecto importante do trabalho lido é o que diz respeito à emancipação dos judeus nos diferentes países da Europa que ocorre nesses séculos. Analisa país a país e mostra que quanto mais os judeus aderiam a aquelas sociedades, maior era a reação contraria e maior era a consolidação de preconceitos claros, respaldados pelos próceres da intelectualidade dos países. Situação que desemboca em todo o ódio que o Holocausto representou.
No século XIX isso se consolida e chama a atenção o posicionamento de lideres como Proudhon e mesmo Marx, o que leva por diferentes razões à assimilação como fuga da perseguição. Atitude que nada resolve. Volta com maior força, por exemplo, na Alemanha da primeira metade do século XX.
Veja-se que em várias áreas da vida social, desde a política onde é mais contundente, até mesmo nas artes. O caso bem detalhado no texto de Wagner é exemplo que leva a refletir como o desejo de ascensão do humano o torna desmedido em seus artifícios e instrumentos para conseguir satisfazer sua vaidade. Os outros nada importam.
Mais de 400 páginas em letra muito miúda. Muitos dias de reflexão e leitura. Ranços que se consolidam e muito explicam reações irracionais e um mundo desumano. Fico triste.

* Abraham B. Sicsú, professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco)

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