Rômulo Rodrigues
Desembarquei no Aeroporto Santa Maria no anoitecer de uma sexta feira8 de janeiro de 1982 para me apresentar no canteiro de obras da NITROFÉRTIL, em Laranjeiras, para um período previsível de uns 6 meses e cá estou há 41 anos, com títulos de cidadão aracajuano, com muita honra.
Vir para a bela e pacata cidade dos Cajueiros e Papagaios foi uma escolha racional movida pela lembrança de por aqui ter passado em excursão em dezembro de 1962 e ter sempre a vontade de um dia voltar, mesmo que por curto período.
Pois bem, no dia seguinte à chegada, instalado no Hotel Oásis, fomos ao comércio bater pernas e a amada, muito criativa na arte de memorizar roupas femininas e passar para o papel, encantou-se com as lojas Tia Maria e AdilsonModas, de quem logo virou cliente.
Aracaju era pequena, metade do que é hoje, pacata, os jornais não tinham páginas policiais e os cardápios dos bares ofereciam caranguejos, pastéis, batatas fritas e calabresas.
O mais típico e exótico que me chamou a atenção foi de Severo D’Acelino com sua construção a lá palhoça e uma boa variedade de caldinhos.
Demorei muito até encontrar um que servisse carneiro guisado. O bar da caça se destacava pela variedade e servia até Paca.
Não havia movimentação social e até a campanha eleitoral de 1982 em que se votava em tudo, menos prefeito, não empolgava e, solitária, a família foi fazer boca de urna para o PT no Colégio Patrocino de São José, sem despertar a atenção dos eleitores.
Veio o ano de 1983 e os operários da NITRFÉRTIL começaram a se movimentar para mudar a história da Capital e do Estado com seus protagonismos. O primeiro passo da nova caminhada foi a convocação do companheiro Edmilson Araújo para a criação da APEQ, embrionária do SINQUÍMICA, que com seu boletim ZAGA, colocou em polvorosa os chefes reacionários ao sair em defesa da greve dos petroleiros de Campinas e Mataripe, onde emergiu a liderança nacional de Jacó Bitar.
Ai veio o ano de 1984 e a febre das Diretas-Já colocou a categoria petroquímica na vanguarda e fez Aracaju se revelar como um palco preferencial da esquerda intelectual e operária e mostrar que o nosso estagiário de direito, futuro advogado dos trabalhadores, estava sendo preparado para ser uma das maiores liderança do Estado.
Se em 1983 os trabalhadores da capital e interior, campo e cidade, conseguiram mandar representação para o 1º Congresso Nacional da CUT, em 1984, fizeram seu congresso estadual e fundaram a central em Sergipe.
Em 1985, nossa tranquila Aracaju foi sacudida por uma campanha para prefeito da capital que assustou os poderosos e abalou o estado de ponta a ponta.
O jovem advogado do SINIQUÌMICA, Marcelo Deda iniciou a mais brilhante carreira política em Aracaju e Sergipe e deu dimensão nacional ao pequeno estado a partir da pequena, pacata e bucólica capital.
Em 2000, depois de se eleger deputado estadual mais votado do estado em 1986, deputado federal em 1994 e 1998, ajudar a impulsionar o sindicalista egresso do movimento das Diretas-Já e do SINDIMINA, José Eduardo Dutra em 1994 a ser eleito senador e ver outro sindicalista despontar como segundo vereador mais votado de Aracaju, Francisco Gualberto, então Chiquinho, em 2000, Deda arranca para um apogeu político, só interrompido pela terrível doença que nem é bom falar.
Em 2002, fui condecorado com o título de cidadão de Aracaju, concedido pela Câmara Municipal, por indicação do vereador Emanuel Nascimento, sacramentando o que já era de fato e de direito; um aracajuano egresso de Caicó; o que não é pouca coisa.
Pulando então para 2023 e já quase octogenário-questão de semanas- e, depois de ter sido agente de toda essa transformação, olho para esta Aracaju cosmopolita, cartão postal pintado e esculturado por artistas daquela geração política explodida no início dos anos 1980, sem o pessimismo de Augusto dos Anjos, de pensar no futuro e ter medo, ainda quero dar uma contribuição a ela. Vou mexer no tabuleiro político de 2024, por dois pontos fora da curva; 1) deixar minha pegadas na quebra do cabaço de nossa capital ser governada por uma mulher, e 2) no ano em que completa 169 anos, talvez, extrair uma raiz quadrada.
Rômulo Rodrigues, dirigente sindical aposentado, é militante político


