Crise humanitára

É bom que se diga: a questão indígena jamais foi tratada com a devida seriedade no Brasil. Isso posto, convém resistir aos apelos da relativização mais simplória. A morte recente de uma mulher yanomami, por desnutrição, é resultado de uma política encampada por um governo de triste memória, encarnado na face macilenta de Jair Bolsonaro.
Os indicadores de mortes e enfermidades, as fotos de crianças e idosos desnutridos, a constatação da falta de medicamentos básicos e a desassistência em saúde na terra yanomami não são novidades e foram denunciados ao longo de todo o governo passado.
De acordo com o Ministério Público Federal, 52% das crianças yanomamis estão desnutridas. Nas comunidades mais isoladas, o índice chega a 80%. Esses indicadores são piores do que os registrados em países do sul da Ásia e da África Subsaariana, onde estão os países com mais desnutrição infantil, conforme a recomendação do MPF.
O quadro crítico é notado também com a malária. Foram 44 mil casos da doença em menos de dois anos, e o cenário é de que toda a população yanomami, de 28 mil indígenas, foi infectada, com descontrole do surto, como descreve o MPF na recomendação em novembro de 2021.
Há algo de errado no Brasil. Outro dia, centenas de balsas a serviço do garimpo foram flagradas no leito do Rio Madeira, no Amazonas. Ilegal, a atividade contava com a simpatia do então presidente Jair Bolsonaro. E não motivou qualquer manifestação das autoridades competentes a serviço do governo federal, àquela altura. A morte de uma mulher yanomami por desnutrição é produto da mesma indiferença.

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