*Antonio Passos
Desde sempre fui criado desfrutando os sabores emanados das mãos e do fogão de Dona Lúcia – minha mãe. Os bolinhos de feijão e farinha amassados entre os dedos dela, o cuscuz com leite de manhã e de noite (quase sempre leite de vaca, mas, de vez em quando uma variação para o leite de coco), a galinha ensopada aos domingos, a carne de sol assada no carvão do fogareiro, o camarão ao molho de maxixe na semana santa, a fava e os doces… Ah! Os doces. Para não me estender muito os farei todos representados por três: o doce de mamão verde, o doce de pão e o doce de leite em calda (este também chamado doce de leite de bolinhas)…
Quando durante um tempo, já pra lá dos trinta, resolvi fazer umas andanças para além das divisas de Sergipe a saudade doeu também nas papilas gustativas. Não aguentei. Peguei o telefone e roguei que ela me ensinasse a preparar o lombo frito no óleo. A carne primeiro é cozida inteira, na água e no vinagre, recheada com toucinho e untada com sal e pimenta do reino. Muitas vezes fora servida assim, diretamente à mesa após o cozimento. Porém, a receita que sempre fez o maior sucesso entre a criançada, ainda tem um desdobramento. Após cozido e cortado em fatias, o lombo vai para a frigideira e é tostado em óleo, junto com rodelas de cebola roxa e pimentão (a prima Tânia dava um toque pessoal à iguaria com folhas de hortelã). No prato do almoço junto com o feijão, a farinha e o arroz, ou recheando um pão com manteiga no café da noite, o sabor e a textura eram sempre os mesmos – maravilhosos! Felizmente, depois daquele telefonema de Brasília para Aracaju, aprendi eu mesmo a preparar o lombo que alcancei desde a casa de Mãe Zezé (a minha avó materna) – o meu, nunca tão bom quanto o de Dona Lúcia, é claro!
E quando ouvi falar dos Deuses olímpicos? Zeus – portador da égide, Apolo, Hera, Hermes – o mensageiro, Palas Atena – de olhos brilhantes, Poseidon – Sacudidor da terra, Afrodite, Eros e tantos outros… Toda aquela informação colidia com a predominante teologia e até então única para mim que dava conta da existência de um único Deus. Mesmo sendo conduzido para aceitar que uma coisa eram as mitologias antigas e outra a religião judaica, uma pulga restou atrás da minha orelha.
Certa vez, numa incerta andança por uma estrada atravessando o interior do estado de São Paulo (ou do Paraná), em um vistoso restaurante anexo a posto de combustível, ouvi, pela primeira vez, uma desconcertante designação. Referindo-se a uma compoteira com doce de leite em calda (não tão belo e, certamente, não tão saboroso quanto o feito pela minha mãe) alguém a apontou e pediu: – Ambrosia, por favor… Que descoberta para mim aquele novo nome sulista dado ao velho doce de leite: ambrosia!
E não é, assim como o néctar a bebida, a ambrosia o alimento dos Deuses olímpicos? Não fora também ambrosia o manjar saboreado pela ninfa Calipso na refeição que antecedeu à partida do desejado Ulisses? Desde então não pude mais hesitar. Como duvidar de divindades que, entre todos os inumeráveis sabores disponíveis, saciam o paladar com ambrosia (o mesmo que doce de leite de bolinhas para nós sergipanos)? Logo eu que trago o doce de leite em calda de Dona Lúcia como algo que me constitui… Custa-me imaginar o universo sem o sabor da ambrosia!
*Antonio Passos é jornalista


