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DO REPUBLICANISMO AO ANARQUISMO: Tensões e contradições na escrita histórica e literária de Manoel Curvelo de Mendonça (1870-1914)


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Publicado em 25 de janeiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Prof. Dr. Antônio Fernando de Araújo Sá
 
Nascido no dia 29 de julho de 1870 no engenho Quintas, município de Riachuelo, Manoel Curvelo de Mendonça despontou como abolicionista e republicano na província de Sergipe, no final do século XIX, colaborando, ainda estudante, nos jornais O Laranjeirense e O Republicano, de 1888 a 1889. Em dezembro de 1892, tornou-se bacharel em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito do Recife, influenciado, como outros intelectuais sergipanos, pelas ideias de Tobias Barreto e Sílvio Romero. Após se bacharelar, transferiu-se, em 1893, para a capital federal, onde, segundo Sacramento Blake, “foi nomeado chefe de seção da intendência municipal e logo depois, na instalação do Instituto Comercial, lente de direito mercantil e economia política, acumulando o cargo de diretor do mesmo instituto” (BLAKE, 1970: p. 58).
Sob a inspiração de um “bando de ideias novas”, que agitou o país, entre 1868 e 1878, Tobias Barreto, Silvio Romero, Araripe Júnior, José Veríssimo e Capistrano de Abreu, entre outros, se engajaram na “atualização filosófica e na crítica à monarquia e ao escravismo” (VENTURA, 1991; p. 41), abrindo caminhos para jovens intelectuais, como Manoel Curvelo de Mendonça. Como outros sergipanos, ele considerava Tobias Barreto como “o maior impulsionador da reforma mental que agitou o paiz depois de 1870” (MENDONÇA, 1896: p. XII).
Como desdobramento da militância abolicionista e republicana em jornais, o escritor escreveu, no livro Sergipe Republicano (1896), “um reparo de teses e de método” com A República em Sergipe (1891), de Balthazar de Araújo Góes (1853-1913), seu ex-professor no Liceu Laranjeirense, abandonando “o método de historiar por biografias” para fixar-se nas ideias e nos fatos, “com suas origens, as suas causas, as suas ligações e suas consequências” (FREITAS, 2007: p. 128 e 129).
De um modo geral, a historiografia sergipana fixa-se nessa obra de referência para a compreensão do processo republicano, por seguir, de perto, a senda aberta por Felisbelo Freire “de flagrar regularidades e tornar científica a história, fazendo desse saber um instrumento auxiliar na tarefa de refinar os costumes, de civilizar a nação” (FREITAS, 2007: p. 130). Essa afinidade intelectual entre ambos os historiadores está presente na resenha escrita por Curvelo de Mendonça sobre o livro História Territorial do Brasil (1906), de Felisbelo Freire, para o Almanaque Brasileiro Garnier (1907), realçando o perfil político republicano e historiador do autor, que pouco importa com “o desamor quase geral dos nossos intelectuais pelos estudos históricos”. Segundo o resenhista, o estudo trata, minuciosamente, dos “cinco centros do nosso povoamento e de sua irradiação pelas antigas províncias, que formam os estados de hoje”.  No “país clássico do parasitismo e da preguiça intelectual”, o livro de Freire representava não “um livro de verso ou de literatura amena, mas está cheia de poesia substancial e profunda, e dos mais possantes mananciais para a inspiração animada das grandes obras de arte”. Para ele, “Nós outros não nos conhecemos” (p. 332 e 333). Desse modo, a história, literatura e jornalismo “se juntam ao compromisso com a vida pública”, no sentido de serem “um instrumento para a formação de uma consciência nacional e um apelo à transformação da sociedade” (DUTRA, 2005: p. 105 e 106).
Na condição de egresso da família proprietária decadente, no Rio de Janeiro, sua trajetória intelectual na belle époque tropical esteve vinculada, contraditoriamente, às ideias evolucionistas e cientificistas da geração de 1870, com sua crença inabalável do progresso, e o caráter apaixonante e fervoroso do romantismo, em “sua mística vulcânica de toques simbolistas, seu milenarismo anarquista e messiânico” (HARDMAN, 1983: p. 83), perceptível no “romance social” Regeneração (1904). Inspirado nas ideias de Leão Tolstói, o romance o projetou na vida intelectual da capital federal, como constatado em entrevista publicada por João do Rio, no Momento Literário (1908). Boris Schnaiderman assinala que a presença do escritor russo no Brasil servia para matizar o “bando de ideias novas” – positivismo, materialismo vulgar, evolucionismo etc. -, pois sua “voz poderosa (…) se erguia contra a vida da época e, maldizendo-a, acabava maldizendo a própria civilização” (1983: p. 91).
No artigo Movimento Socialista no Brasil, publicado no Almanaque Brasileiro Garnier (n. 4, 1905: p. 277), Curvelo de Mendonça se posiciona ante à confrontação no movimento entre a posição tolstoiana com a dos seguidores de Kropotkin. Para ele, os seguidores de Tolstói eram “restauradores do Evangelho puro de Jesus, com o seu formoso e primitivo comunismo”, sendo “calmos e evolucionistas, mais ou menos místicos atrás do seu Deus ideal de Justiça e Verdade”. Já os seguidores de Kropotkin entendiam “que é necessário resistir ao mal violentamente para destruir as iniquidades da sociedade presente”. Entretanto, reitera que ambos estão acordes da construção de uma “nova ordem de coisas para satisfazer a ansiedade dolorosa, em que se debate a humanidade”.
Assim, tanto no romance social Regeneração, de Curvelo de Mendonça (1904), como em O Ideólogo, de Fábio Luz (1903) ou em peças, como O Semeador, de Avelino Fóscolo, o milenarismo comunitário e messiânico tolstoiano se constituiu em força motriz para as narrativas, transformando a comunidade de Canudos em “comuna exemplar”, marcada pela fraternidade e a igualdade (HARDMAN, 1983: p. 84).
Esses textos “passaram a integrar o cenário da vida cultural da época. Talvez não com a intensidade esperada e desejada pelos autores, mas indiferença, não houve”, como podemos verificar na entrevista de Curvelo de Mendonça para o jornalista João do Rio, definindo sua obra como “literatura útil”, preocupado com a propaganda anarquista de transformação social no início da república. Mesmo não sendo consideradas as “melhores expressões do pensamento e da sensibilidade” da época, essa “ficção não se desenvolveu à margem das circunstâncias que marcaram a evolução da vida intelectual do país”. Publicados pelas prestigiosas editoras Garnier e Francisco Alves, esses livros eram “encontrados nas livrarias mais frequentadas da praça” (LUIZETTO, 1996: p. 138, 144 e 149).
O romance social Regeneração foi considerado exemplar da “projeção do  comunismo perfeito a partir da desritualização do Cristo, agora tirado da liturgia romana para figurar no tempo da utopia como irmão oprimido dos homens e logo revelar-se ‘o maior revolucionário’ do mundo”. Nele, “Curvelo transforma o padre Felismino numa espécie de avatar do Cristo, contrapondo-o ao poder da Igreja romana e da aristocracia rural, que se aliam às autoridades da província para destruí-lo. É dele, por exemplo, que nasce a ação revolucionária de Antôno, herói libertário do Arraial Grande” (PRADO, 2004: p. 27-28). 
Na narrativa, Antônio “aparece como um novo Antônio Conselheiro, desta vez patrocinado pelas oligarquias [pela aliança ao latifundiário Ricardo Moreira, que se casa com sua filha] e responsável, sob a luz de um Evangelho próprio, pelo êxito de uma nova ordem para as relações sociais no campo no Brasil de começos do século” XX. Para AntonioArnoni Prado, esse romance tolstoiano “recupera o tema da colonização a partir de uma reforma cuja base é a composição familiar”, em que “a propriedade e as regras de convivência permanecem nas mãos do latifundiário” (PRADO, 2004: p. 81 e 80).
A trajetória intelectual de Curvelo de Mendonça, marcada pela militância republicana, abolicionista e anarquista, demonstra a dificuldade de ruptura com a sua condição de classe social, pois, como egresso de família sergipana proprietária decadente, traços da “tradição místico-religiosa da oligarquia rural” se mantiveram em um romance que buscava a transformação social, inspirada nas ideias de Tolstói. Frise-se que, à época, “o tolstoísmo como opção política já havia descartado pelos anarquistas no Congresso Internacional Antimilitarista realizado em 1904, em Amsterdã” (PRADO, 2004: p. 80 e 69).
Entretanto, a abordagem simpática ao movimento de Antônio Conselheiro merece destaque, já que, apesar de contradizer a visão de Euclides da Cunha de um “gnóstico bronco” e sua “oratória bárbara e arrepiadora”, aproxima-se dele na interpretação milenarista. Ao mesmo tempo, Mendonça fica próximo da perspectiva de Machado de Assis, que, em suas crônicas, valorizou a capacidade de mobilização e de contestação de valores do líder camponês (SILVA, 2001: p. 147).
Nessa “literatura de crise”, tenta-se “tenta apreender, ainda que por caminhos contraditórios – utópicos ali, distópicos acolá; às vezes românticos, noutros messiânicos – as ‘temporalidades em trânsito’ (…), que parecem caracterizar períodos de rupturas mais ou menos intensas (GRUNER, 2019: p. 160).
Após sua morte em 1914, o escritor sofreu com críticas de escritores que lhe eram próximos, como Fábio Luz, também adepto do tolstoísmo, mas se a realização ficcional de sua “literatura útil” pode ser questionada, “é inegável seu valor para o estudo do capítulo anarquista da historiografia das ideias sociais e políticas no Brasil” (LUIZETTO, 1986: p. 136).
 
* Prof. Dr. Antônio Fernando de Araújo Sá, Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe
 
REFERÊNCIAS
BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. DiccionarioBibliographico Brasileiro (Volume 6: Letras M-Pe). [Rio de Janeiro]: Conselho Federal de Cultura, 1970.
DUTRA, Eliana Regina de Freitas. Rebeldes literários da República: história e identidade nacional no Almanaque Brasileiro Garnier (1903-1914), Belo Horizonte, Editora da Universidade Federal de Minas Gerais, 2005.
FREITAS, Itamar. Historiografia Sergipana. São Cristóvão: Editora da UFS, 2007.
GRUNER, Clóvis. Um snob anarquista: O maximalismo libertário de Lima Barreto. GRUNER, Clóvis, RIBEIRO, Luiz Carlos (Org.). Utopias e experiências operárias: ecos da greve de 1917. São Paulo: Intermeios: Curitiba: UFPR-PPGHIS, 2019.
HARDMAN, Francisco Foot. Palavra de Ouro, cidade de palha. In: SCHWARZ, Roberto (org.). Os pobres na literatura brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983.
LUIZETTO, F. V. O recurso da ficção: um capítulo da história do anarquismo no Brasil. In: AntonioArnoni Prado. (Org.). Libertários no Brasil – Memória, lutas, cultura. São Paulo: Brasiliense, 1986.
MENDONÇA, Manoel Curvelo de. Regeneração, romance social. Rio de Janeiro, H. Garnier, 1904.
MENDONÇA, Manoel Curvelo de. Sergipe Republicano: (estudo crítico e histórico). Rio de Janeiro: Casa Mont’Alverne, 1896.
MENDONÇA, Manoel Curvelo de. História Territorial do Brasil. Almanaque Brasileiro Garnier. Rio de Janeiro, RJ :Typ. H. Garnier, 1907.
PRADO, AntonioArnoni. Trincheira, Palco e Letras: Crítica, literatura e utopia no Brasil. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.
SILVA, Dácia Ibiapina. Entre Literatura e Jornalismo: a Guerra de Canudos nas Crônicas de Olavo Bilac e Machado de Assis. In: ALMEIDA, Ângela M. de, ZILLY, Berthold e LIMA, Eli Napoleão de (org.). Os sertões, desertos e espaços incivilizados. Rio de Janeiro: MAUD/FAPERJ, 2001.
VENTURA, Roberto. Estilo tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
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