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ENDRIK E O GORILA


Publicado em 17 de maio de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Lelê Teles

Endrik meteu um gol e, no momento mais feliz e glorioso de um atacante, explodiu em festiva alegria.
O moleque é brabo demais.
Numa coreografia inesperada e inusitada, o garoto agachou-se, tocando o dorso das mãos no solo e, já ereto, socou o tórax com os punhos fechados, qual um gorila.
Um gesto plasticamente lindo, forte e poderoso.
O sorriso adolescente fez tudo ficar ainda mais bonito.
Confesso que fiquei emocionado.
Os trabalhadores do Park Virunga, no Congo, devem ter visto essa imagem com lágrima nos olhos e sorriso no rosto.
E não duvido que devam ter levado a imagem, no tablet, pra mostrar pros gorilas selvagens.
Para estes primatas, as fortes batidas no peito é um sinal de poder.
Tenho certeza que os racistas sentiram o poder do craque Endrik lá da arquibancada.
É preciso, e é urgente, ressignificar símbolos e signos racistas.
Essa é a melhor forma de fazer com que eles percam a sua força deletéria.
Vi muitas pessoas negras afoitas condenando a atitude do atleta.
E eu acho que elas estão, todas, inteiramente erradas!
Essa galera tá presa naquele tipo de sofrimento descrito pela Neusa Santos Souza.
Negar-se para ser aceito.
A alegria do racista, você bem o sabe, é ver a pessoa negra sofrendo com seus insultos.
Não podemos dar a eles o que eles querem.
É preciso fugir dessas armadilhas.
Essa do macaco, convenhamos, é ridícula.
Claro que o racista chama a pessoa negra de macaco querendo dizê-la incivilizada e incivilizável, mas cair numa conversa mole dessa é muita fraqueza de espírito.
Primeiro que o conceito de civilização dos brancos não deveria ser um parâmetro para nós outros.
Segundo que é muito melhor ser comparado com um chimpanzé que com um macho branco.
Basta dar uma lida nos estudos da primatóloga Jane Goodall e verás o quanto somos mesmos parecidos.
Sim, nós e os chimps temos muito em comum e isso é ótimo.
Nós compartilhamos 98,6% de nosso dna com esses camaradinhas.
Fora as diversas formas de interação e integração social muito semelhantes.
Nóis é bróder demais.
E ó, a civilização egípcia já exibia híbridos de humanos e animais numa boa, viu.
Quem não gosta de bicho são os destruidores de florestas.
Já viu crianças indígenas com macaquinhos na cabeça?
Além de fazer parte da dieta deles, os macacos também integram a vida doméstica dos povos da floresta.
Tem um reggae-ska clássico de ’69, dos jamaicanos Toots & The Maytals, chamado Monkey Man.
Ja viu a versão com Amy Winehouse, com seus dois crooners negros cantando o refrão e sorrindo?
“Aye aye aye, aye aye aye
you huggin up the big monkey man.
now I know that, now I understand
you’re turning a big monkey man”
O macaco, atentai bem, é um animal de poder em muitas culturas.
Na índia, o Hanuman, filho de Vayú (o deus do vento) e Avatar de Shiva, é o macacao-deus.
Sim, um deus macaco.
Hanuman é um dos heróis dos poemas mito-épicos ramayana e mahabharata.
Ele surge como um vanara, que é um híbrido de humano e macaco.
Olha que maravilha!
Se você assistir ao filme Monkey Man, do diretor indiano Dev Patel, com produção de Jordan Peele, verá um lutador encarnando hanuman.
E ele faz o mesmo gesto de Endrik ao entrar no ring pra destroçar os racistas na porrada.
Presta atenção nessa porra!
E tem mais.
Tem um mito chinês que narra as façanhas de um certo sun wukong.
Meio macaco, meio homem.
O sacana reinava na macacada, mas decidiu empreender uma jornada entre os seres humanos.
Aprendeu a falar como nós e foi iniciado no tao e no budismo, veja você.
E ele ainda podia assumir 72 formas diferentes, era forte, veloz e saltava a distância que desejasse.
O sujeito era brincalhão e atrevido, chegou mesmo a roubar um dragão do mar para desafiar os deuses.
Era peralta, um erê, um puer aeternus, como diria Jung.
Sabe aquele mulequinho do animê japonês Dragon Ball, de nome goku, então, esse son goku encarna o arquétipo de sun wukong, o macaco-rei chinês.
Son goku é literalmente a tradução de sun wukong.
No templo budista Sau Mau Ping, em Hong Kong, a moçada celebra um festival em homenagem ao macaco-rei.
Tem até santuários para esse deuzinho endiabrado.
O macaco é o nono signo no horóscopo chinês, e sabe quais são seus principais atributos?
Criatividade, inventividade, capacidade natural para inovação…
Tá bom pra você?
Só quem acha que há algo de errado com os macacos são os brancos.
Faça como o Endrik, dê uma banana pra eles, cara.
E ó, Samuel Eto’o já imitou um símio depois de fazer um gol contra o Zaragoza, em 2005.
Um gesto antirracista.
Em 2018, o atacante brasileiro Iuri, que joga na Ucrânia, meteu um golaço de bicicleta e comemorou imitando um macaco.
Para a tristeza dos racistas que devem ter ficado desapontados na arquibancada.
Outros jogadores negros já fizeram o mesmo.
Ligue os pontos, ative seu lugar de escuta.
As escrevivências partem do referencial de cada um.
É ó, atentai pra isso: é preciso, e urgente, ressignificar símbolos racistas!
A cruz, veja essa, era um instrumento de tortura utilizado pelos persas e depois adotado pelos romanos.
Era o símbolo de uma espetaculosa crueldade.
Na cruz, o cristo foi torturado e assassinado.
Como foram torturados e assassinados, o escravizado Spartacus e milhares de insurgentes subversivos.
A cruz, hoje, é o símbolo do cristianismo, do amor, da sororidade e da fraternidade.
Foi ressignificada.
Quando o jogador de futebol americano, Colin Kaepernick, dobrou o joelho em sinal de protesto, ele ressignificou a genuflexão.
Ajoelhar-se, você bem o sabe, é um sinal de reverência e submissão.
Quantas vezes os escravizados foram obrigados a se ajoelharem para beijar os pés imundos de padres escravagistas?
Colin ressignificou esse gesto, dando a ele um novo sentido.
Endrik, na naturalidade de sua alegria, pode ter dado um passo importante para que os gritos de macaco, na arquibancada, possam vir seguidos de um golaço e alternadas batidas no peito.
Sinônimo de grandeza, força e poder.
É a forma mais bonita de dar uma banana aos racistas.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles, jornalista, publicitário e roteirista

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