Eu também a chamava de Clarinha

A jornalista Clara Angélica Porto deixa saudades (Reprodução)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Ao encontrar amigos mais velhos, faço sempre a mesma advertência: Tratem-me bem! Lembrem que eu escreverei os seus obituários!
Ao chafurdar na pilhéria, não tinha ainda me dado conta de que seria assim mesmo. Roberto Nunes antes de todos. Depois Araripe, Amaral e Ilma Fontes. Todos partiram sem festa. A piada perdeu a graça.
Eu e Clara Angélica nos reconhecemos iguais no gosto de escrever e também na sensibilidade. Já nos sabíamos partidários da mesma causa ingrata quando ela me convidou para um almoço oferecido a Nestor Amazonas em sua residência, na Coroa do Meio. Cheguei com uma garrafa de vinho e fui recebido com uma balada elétrica de Bob Dylan na titela – uma balada, um balaço!
Nunca mais deixamos de nos falar. Falávamos de tudo, o dedo duro apontado para deus e o mundo. Sobre nós mesmos, entretanto, só agora me dou conta, nunca trocamos uma única palavra. Não éramos amigos, portanto, embora eu também a chamasse de Clarinha. Mas nos equilibramos sobre o fio da mesma navalha.
Segundo uma anedota panfletária atribuída a Hemingway (outro dos nossos), os sonhos e as inclinações das pessoas eventualmente a seu lado numa trincheira seriam mais importantes do que a própria guerra. Eu e Clarinha nunca nos curamos das saudades de um mundo extinto há muito – o mundo em que ela viveu na flor de seus melhores anos, o mundo  com o qual eu sonhava.
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