Rian Santos
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O Natal nunca foi, para mim, uma festa religiosa. Não sou homem de sermão e batina. O pretexto para abrir uma boa garrafa de vinho, no entanto, basta para me reconciliar com os ritos festivos do cristianismo.
Atenho-me à representação mais usual da Santa Ceia com os olhos voltados para a mesa posta. Há, sim, naquele momento capital, um espírito comovente de comunhão. Ali, entre taças, louças, talheres, a satisfação dos apetites aproxima Judas e o próprio Cristo.
Quem bebe da minha bebida só pode receber o nome de amigo. Em lugar onde os copos transbordam reina sempre verdadeiro entendimento. As traições vindouras, obra de ego ou destino, tomam depois o próprio rumo a caminho da forca.
Não creio realmente em algo como a falsidade. Há diferenças legítimas entre os homens, naturalmente. Mas os 30 dinheiros cobrados pela mentira, mais dia, menos dia, eventualmente se pagam.
Sim, boto fé no Natal. Encho o caneco, aceito Jesus, espero o Papai Noel. Embriagado, inesperadamente rico, saboreio um último gole, sem mais nem menos, finalmente em paz.


