Rian Santos
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Um grande navio enferrujado esteve atracado cá em nossas margens há tanto tempo, a ponto de merecer o status de paisagem. Bastava alguém molhar a vista no horizonte da aldeia para sentir o atrito metálico na retina, feito amargo travo visual. Ali, encalhado, na ausência de um monumento capaz de dar uma forma definida ao espírito do lugar, o navio da H. Dantas foi adotado como uma espécie de totem, símbolo imprevisto, um arauto flutuante da imobilidade Serigy.
Segundo uma canção popular, “tudo o que move é sagrado”. Pois numa capital de pedra, como Aracaju, até o sentimento é estanque. Ruína e ferrugem, o artesanato do tempo, são fabricados em silêncio, com a complacência dos entes públicos. Enquanto as traças se fartam com os papéis da burocracia, os cupins engordam, lambendo os dedos. Só por isso o Hotel Palace ainda ameaça o passeio no centro da cidade.
Aqui, quando as paredes não vacilam, as portas são trancadas a sete chaves. Basta lembrar o que foi feito do finado Cacique Chá. De ambiente animado, abrigo de farras e debates calorosos, casa de pecados deliciosos, a julgar pela crônica saborosa de Amaral Cavalcante, foi feito um restaurante sem graça, em regime de horário comercial, sob o pretexto de preservar a memória traída pela ingerência de sucessivos governos. Melhor seria tê-lo abandonado à própria sorte, até o prédio desmoronar de uma vez por todas, orgulhoso como um herói.
Do casarão onde funcionou a Prefeitura de Aracaju, alguns passos à frente, nem se fala. Gestão após gestão, a ruína perdura e ganha ares de monumento.
Leio a respeito de uma nova desocupação do Hotel Palace, tomado uma vez e outra por cidadãos sem teto, neste Jornal do Dia. Leio e lembro dos marcos supra mencionados do descaso com o patrimônio e a memória local.
O próprio Hotel Palace, alijado de função social; o navio da H Dantas, sucata já apagada da paisagem; o prédio histórico da Prefeitura de Aracaju, no Centro da cidade, cercado por tapumes… Tão certo como dois e dois é igual a quatro, um dia a casa cai.


