FRICOTE

Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos

Não é a primeira e não será a última vez que um artista se indispõe com alguém e interrompe o show para mandar seu recado. Além de legítimo, também é oportuno e talvez educativo para quem insiste em despejar suas frustrações naqueles que nos presenteiam com seu talento. Assim foi no último dia 7 de fevereiro, quando Luiz Caldas foi chamado de velho, pejorativamente, no Carnaval de Juazeiro-BA.
A resposta de Caldas, além de pontual, foi assertiva e em nenhum momento ele revelou, pelas imagens, algum tipo de rancor. Pelo contrário, mostra um artista para além de “velho”, mas maduro, sereno e sábio. Leiam: “Brother, você aí de branco igual a mim. Olha, espero que você chegue aos 60 anos como eu estou: bem. Velhice não é problema para ninguém. Você vai ficar velho também, se Deus permitir. Eu também era forte assim. Mas isso passa, e a inteligência fica”.
Luiz César Pereira Caldas fez 60 anos no dia 19 de janeiro de 2023. É natural da cidade baiana de Feira de Santana, a Princesa do Sertão. Ainda na infância descobriu suas habilidades artistas para a música, mas até se consagrar em Salvador, procurou levar a vida trabalhando no comércio. De qualquer sorte, intercalava a função de proletário com a de cantor e músico na banda de João Faustino, na cidade de Jequié-BA.
No final dos anos 70, lançou seu primeiro disco: “Ave Caetano/Tapajós”. Nos anos 80, emplacou seu nome na cena artística baiana e nacional, se apresentando em programas de TV, como os que eram comandados pelo saudoso Chacrinha. Em 1985, se firmou como o pai do Axé Music, um ritmo completamente novo, que teve a música “Fricote” (Luiz Caldas e Paulinho Camafeu) como carro-chefe. O sucesso da canção, também veio acompanhado da “dancinha” e o clipe. O Carnaval de Salvador e a música baiana não foram mais a mesma dali em diante, se popularizando cada vez em nível nacional. Nas reuniões com meus irmãos e irmãs, seus familiares, lá depois de algumas cervas, nunca falta o “Fricote” e o desafio para quem leva mais as pontas dos dedos indicadores das mãos até o chão.
No disco seguinte, “Flor Cigana” (1986), destaque para “É tão bom”, em parceria com Caetano Veloso. Um primor de música: leve e poética. Em outra faixa, ele divide uma canção com Moraes Moreira, “Yalorixá”. E mantendo a pegada bem-sucedida do Axé Music, “Eu vou já”, com os versos: “Morena me espera um pouquinho. Que eu quero um pouquinho. Não sei de que. Mas eu vou já pra fazer. Não sei o que com você”.
Em “Lá vem o guarda”, de 1987, Luiz Caldas já era uma estrela nacional, muito requisitado por todo o país. Em Lagarto-SE, fez um showmício que ficou marcado na História Política da cidade, pois na noite de sua apresentação, na Praça Filomeno Hora, um boi se soltou do matadouro e dispersou parte da multidão que foi prestigiá-lo. Há quem diga que foi uma maldade dos adversários políticos de seu contratante. Daquele disco, destaque para os hits “Haja Amor” e “Oh! Minha índia”. Sem falar na parceria com Luiz Gonzaga em “Amazonas”.
E assim foi nessa toada de criatividade Axé Music pelos anos seguintes: “Odé e Adão” e “Broto Trog”, em 1988; “Atual realidade (não tá com nada)”, canção com forte crítica social, em 1989; “O que é que essa nega quer?” e “Minha princesa”, em 1990; “Deixa pra lá”, em 1992. Com “Tieta” (1989), do álbum “Timbres”, Luiz Caldas chegou ao topo máximo da carreira e ali se consagrou em definitivo. A canção foi música-tema da novela da Rede Globo, “Tieta” (1989-1990).
Em 1998, gravou um CD com grandes clássicos do Forró. Doravante, procurou fazer outras experiências musicais, como o disco “Antídoto”, onde Caldas mostrou seu lado mais metal. Seus trabalhos mais recentes foram “Afago na Alma” e “Pinduca e o Rei”, ambos de 2022. Em todos esses anos, nunca parou de compor e nos brindar com trabalhos novos para além do Axé Music, do qual nunca conseguiu se descolar e nem deve.

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