OBSERVAÇÕES DE PROFESSOR SOBRE O JORNALISMO SERGIPANO

Afonso Nascimento

O Jornal do Dia completa dezoito anos. Parece pouco tempo? Sim, se for comparado com os grandes jornais internacionais e brasileiros, como o americano The New York Times, o francês Le Monde, os brasileiros O Globo, O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo. Mas, na realidade sergipana, são quase duas longas décadas que esse periódico tem sido conduzido pelo competente e dedicado Gilvan Manuel, que é também um dos melhores jornalistas e editorialistas de Sergipe.
Aproveitando essa ocasião, quero dizer que gosto de pensar o jornalismo com uma frase de Bourdieu, ou seja, em minhas palavras, o jornalismo como sendo uma descrição de uma sucessão de tragédias, guerras, escândalos, desastres, fomes, desgraças, crimes etc. Tudo o que sai do normal. O faro dos jornalistas parece se reduzir a seguir essas pistas.
Muito interessante é refletir que, em sociedades desiguais e dilaceradas como a sergipana, esses eventos fora do normal são a regra. As notícias já estão prontas. Os pauteiros devem raciocinar assim: atrás de quais notícias ruins vamos atrás hoje? Construir a primeira página, aquela com as manchetes, também deve ser coisa fácil. Imagine você o contrário, isto é, sociedades igualmente pequenas, mas igualitárias, nas quais é pouca a criminalidade, em que a democracia de verdade funciona, em que delegacias de polícia são fechadas, como é mais complicado encontrar fartura de notícias desastrosas.
A construção social da realidade sergipana pelos jornalistas é um fato. Com efeito, os profissionais do jornalismo constituem um dos grupos de construtores sociais da realidade sergipana – o que é válido para todas as sociedades que possuem jornais. Através do registro cotidiano do que acontece socialmente e que é julgado politicamente (a tal seletividade) ser merecedor de destaque, fazem uma crônica diária das várias dimensões da sociedade sergipana que se torna, por sua vez, fonte para outros construtores sociais da realidade como os pesquisadores universitários. Não é desnecessário dizer que a palavra jornal vem do francês “journal” e quer dizer um resumo do que se passa diariamente e que a palavra newspaper do inglês significa a mesma coisa, ou seja, uma folha de papel diária de informações. Seguindo em frente, os arquivos dos jornais são então um registro histórico do que acontece na sociedade sergipana. Acho estranho então que, pelo menos muitos jornalistas que conheço, não se considerem intelectuais.
O mercado de trabalho para os profissionais da palavra escrita, impressa ou eletrônica, enfrenta um grande problema que é o excesso de jornalistas. As escolas de jornalismo em Sergipe lançam no mercado anualmente safras e safras de jornalistas que engrossam as fileiras dos desempregados. Não existem suficientes empresas jornalísticas para dar empregos a tanta gente. No quadro do patrimonialismo sergipano, contudo, foi encontrada uma solução que é o emprego de jornalistas em tudo o que é repartição pública. Agora, “todo o mundo” tem o seu assessor de imprensa. Como funcionários públicos temporários e permanentes, esses jornalistas se parecem com os bacharéis em Direito em termos de abertura de empregos na máquina estatal. E, por essa via, haja nepotismo direto e indireto, favores e mais favores devidos. Devo acrescentar que o jornalismo sergipano é em grande parte feito de “releases”.
Outra questão relativa ao mercado dos jornalistas profissionais diz respeito à definição de quem é jornalista. Só é jornalista quem tem diploma universitário? Nisso reside uma tensão entre os jornalistas com passagem por bancos universitários e aqueles que foram treinados na prática das redações dos jornais. Os jornalistas sem diplomas retiram sua legitimidade da prática cotidiana acumulada em anos de exercício do “métier” e sempre estão lembrando que seus colegas diplomados possuem muitas teorias e pouco dão conta da produção efetiva do trabalho jornalístico. Sobre quem pode exercer a profissão de jornalista, em 2007, o STF decidiu que profissionais, diplomados ou não, podem fazê-lo. Fica por conta das empresas de jornalismo a sua contratação, lembrando que a interdição de não diplomados foi feita pelo regime militar como modo de expurgar opositores intelectuais e escritores do meio da imprensa.
Os jornalistas profissionais e a classe política possuem uma relação muito estreita, uns dependendo dos outros. Os políticos compreendem a importância da comunicação política, de aparecer nos jornais, de terem seus assessores de imprensa. Buscam visibilidade, querem mostrar o que dizem fazer. Eles são fontes de informações que alimentam o jornalismo político, sendo procurados por profissionais do jornalismo. Ou procurando jornalistas para lhes dar informação com exclusividade! Os políticos permitem então o acesso dos jornalistas ao espaço da política que a outros profissionais interditado. A política se torna – mas não apenas – um espaço de muitas trocas entre jornalistas e políticos. Mas os políticos vão mais longe e procuram puxar para o seu lado jornalistas que possam “plantar” notícias para si nas redações de jornais, tornando deste modo as folhas do jornal em espaço de lutas políticas.
As empresas sergipanas de jornalismo são quase, hoje, organizações sem fins lucrativos. Como assim? Todas elas têm problemas para manter suas atividades em funcionamento por causa da falta de financiamento. Quais as suas fontes de renda? O dinheiro oriundo das assinaturas dos jornais e dos anunciantes (publicidade) não são suficientes para cobrir todas as despesas dos jornais. É aqui que entram as verbas dos governos municipais e estadual para complementar o pagamento dos jornalistas, demais funcionários dos jornais, etc. Essa relação é uma zona cinzenta que o governador Marcelo Déda prometeu que daria um jeito e não conseguiu. E isso também acontece com o governo federal.
Certos jornalistas sergipanos que conheço têm uma ideia equivocada de quem realmente são eles. Acham que são “o quarto poder” da sociedade sergipana, esquecendo que isso não acontece em nenhuma sociedade que adota o presidencialismo. Eles não têm autonomia para isso. O espaço ocupado pelos jornalistas sofre muitas influências externas e seus jornais são porta-vozes de empresários, de partidos políticos, etc. Não sei onde nasceu essa ideia de “quarto poder”, provavelmente nos EUA. Por outro lado, é verdade que os jornais são um fortíssimo grupo de pressão cuja força política varia conforme a conjuntura política. Isso, sim. Durante certos períodos de crise, podem manter membros dos três poderes nas cordas do ringue político ou derrubar governos.
Os jornais impressos são os principais formadores da opinião pública sergipana no que diz respeito ao mundo da política, nessa área competindo com o radialismo político e blogues. Em outros setores da opinião pública não tem como competir com os canais de TV, veículos especializados na despolitização dos sergipanos. Além dos políticos, os consumidores de notícias políticas são funcionários dos três poderes, parte da classe média, professores universitários, sindicatos e setores do empresariado.
Certa vez, nos anos 70, eu li que, em um povoado da antiga Iugoslávia, as pessoas aproveitavam qualquer pretexto para comemorar, para fazer uma festa. Guardei a lembrança dessa leitura e ela veio à tona agora por ocasião dos dezoito anos do aniversário do Jornal do Dia. De um modo geral, os três jornais impressos e eletrônicos sergipanos têm sobrevivido em um tempo de rápidas mudanças na mídia mundial, com uma diversificação veloz das formas e das tecnologias na produção, na circulação e na leitura das informações. Fazem o que podem. No caso do Jornal do Dia, fundado em 2005, tem mais motivos para comemorar essa sua maioridade porque os problemas que tem enfrentado têm sido bem maiores. A sua persistência também deve ser celebrada por ser o jornal mais à esquerda dentre os três, garantindo desse modo a pluralidade de vozes no jornalismo sergipano – sem demérito para os demais.

Afonso Nascimento, professor de Direito Aposentado da UFS

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