HERANÇA DO CENTRALISMO

Inocêncio Nóbrega

A colonização mineradora, no sudeste do Brasil, não demora se conjugar com as áreas paulistanas de cafeicultura, contemporâneas do intensificado plantio da cana de açúcar no nordeste, convivendo com os desertões, por inclemência da natureza. Nessa atmosfera aspirava-se à autonomia política em relação a Portugal, que afinal aconteceu há duzentos anos, resultado da mobilização geral, com maior incidência desde o norte até São Paulo.
Um luso é alçado a Imperador, o povo do Pará, liderado por Alberto Patroni e Batista Campos, contesta, entendendo que o trono caberia a um brasileiro. A reação é fulminante e 200 patriotas são asfixiados no porão de navio. Reivindica-se uma Constituinte. D. Pedro abre a Assembleia, criteriosamente composta, sob a advertência de que a Constituição fosse digna de si, o que realmente não se dá, por isso mesmo dissolvida. Nordestinos reagem, no que se chama de Confederação do Equador, em 1824, sendo martirizados vários patriotas.
Nesse patamar, em 1850 o eixo econômico da região norte-nordeste se desloca para o centro-sul, a exemplo de outras, sendo consideradas periféricas. O governo imperial atrai italianos e alemães, que atuam no sul, dando-se um salto na pecuária e produção da charque, cujo excedente é exportado, porém o açúcar nordestino tem de enfrentar a concorrência do mercado exterior. A política sócio-ocupacional no Brasil sempre teve características de duas medidas, no final do Império e na República. Na era da industrialização busca-se prioridade financeira, assim como na segunda metade do sec. XX, os investimentos estrangeiros são primordiais.
O governo de JK, na sua meta desenvolvimentista, herda o centralismo industrial como princípio. Montadoras automotivas e um conglomerado de fábricas e empresas de serviço, de diversas atividades, são alocados em cidades sudestinas. Faz reacender, conforme assistimos, a dicotomia regional. Para o nordeste, cria a SUDENE, com um cinturão de Projetos, muitos sem funções socialmente regenerativas. Longe de uma equilibrada distribuição das unidades fabris, o hábito tornou-se recorrente, com reflexos eleitorais, desestabilizando a simbologia estrelar da bandeira nacional. Existem, hoje, comunidades de sentimentos e interesses antagônicos, não havendo na Carta Magna e nas práticas institucionais peças de reposição que os detenham. O voto pode traduzir insinuações separatistas e preconceituosas, mirando os “párias” de regiões mais empobrecidas, as quais, feridas nos seus brios remetem à história de República do Nordeste. Bem postas as palavras de Ciro Gomes, o momento é preocupante.

Inocêncio Nóbrega, jornalista.

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