JACKSON BARRETO FALA SOBRE O MAJOR JOÃO TELES

Afonso Nascimento

Em uma conversa telefônica que tive com Jackson Barreto (JB), ele me contou um pouco sobre o major João Teles. Os dois eram comunistas, porém pertencentes a gerações diferentes. JB foi comunista de 1967 a 1984 e, enquanto tal, teve a oportunidade de conhecer o major pessoalmente. Disse ter estado com ele várias vezes. Em diversas ocasiões, o visitava só para ouvir as suas histórias de ativismo militar e comunista. JB tem uma opinião muito positiva do major João Teles: homem muito respeitado, querido, humanista, solidário.
Diferentemente do que dizem outras pessoas, para Jackson Barreto, o major João Teles era acessível e aberto. Gostava de contar suas experiências passadas como militar de esquerda. Disse ter estado com ele muitas vezes e revelou que ele ajudava as pessoas pobres que o procuravam. Tinha muitos contatos entre as elites econômicas, sociais e políticas de Sergipe.
O major João Teles era muito próximo de Luís Carlos Prestes. Se conheciam pessoalmente. Aliás, o major conhecia muitos comunistas da “velha guarda” do partidão, os comunistas históricos. Tinha acesso aos quadros dirigentes do PCB nacional.
O político profissional Jackson Barreto (que ocupou todos os mandatos eletivos brasileiros, menos o de senador) e o major João Teles foram sequestrados em 1970, ano de eleição. O fato é que, quando chegou no 28º. BC, encontrou o major e outros e com eles passou a dividir a mesma cela. Os dois não entendiam porque estavam ali. O major e os outros foram liberados, enquanto JB foi levado para o novo anexo do quartel da Polícia Militar de Sergipe, onde ficou cerca de quarenta dias. Só foi liberado depois das eleições. Era a chamada Operação Gaiola, que aparece na documentação das agências de repressão e que consistiu numa manobra do regime militar para impedir que os dois, comunistas bem relacionados, pudessem influenciar eleitoralmente nos resultados daquela eleição.
JB informou que teve, em duas oportunidades, reuniões político-eleitorais com o major João Teles, a saber, em 1970 e em 1972. Esses encontros ocorreram no sítio do major. Jonas Amaral, grande amigo comunista de Jackson Barreto, também esteve presente. Nesses dois encontros clandestinos, o major apresentou os dois candidatos comunistas aos seus seguidores também presentes e lhes pediu que trabalhassem para eleger os dois jovens políticos do MDB, egressos do movimento estudantil – que foram, por sinal, eleitos.
Para o ex-governador, os militares não gostavam do major João Teles porque ele, por ser militar, não poderia ser comunista. Relatou não conhecer as atividades do major João Teles ligadas ao Setor Militar do PCB.
Quando foi prefeito pela primeira vez (1986-1989), o ex-governador colocou o nome do major João Teles em escola recém-inaugurada em Aracaju. Naquela ocasião, percebeu e estranhou que alguns membros da família do major ficaram desconfortáveis com a homenagem. Até hoje não entendeu o motivo.
Em 1981, na condição de deputado federal, Jackson Barreto fez, na Câmara de Deputados, um discurso sobre o major João logo após a sua morte, o qual eu passo a transcrever em seguida (Pronunciamentos de Jackson Barreto, de 1979 a 1985). “No dia 25 de fevereiro último, deixou de existir uma das maiores personalidades democráticas de Sergipe – o major Teles de Menezes. O Major, como era conhecido pelos sergipanos e por seus companheiros de luta, faleceu (…)”, tendo dedicado, no mínimo, 50 anos “às grandes causas da democracia e do socialismo no Brasil”.
Continua JB: “Seu caráter afável, sua cortesia no trato de questões difíceis junto aos aliados, faziam-no respeitado até pelos adversários, porém era intolerante quando se tratava de defender seus princípios. De um humanismo estreitamente vinculado à vida diária, sua casa se constituía um abrigo seguro para quantos tivessem qualquer tipo de dificuldades, sobretudo os que precisavam encontrar um esconderijo frente a perseguições policiais”.
Jackson Barreto dá uma diferente opinião sobre as origens sociais do major João Teles. “Oriundo das classes médias (seu pai era negociante e sua mãe professora primária), o major, desde 1924, foi-se inserindo nos conflitos da sociedade brasileira; em 1935, encontrava-se em Natal; em 1945, foi um dos grandes batalhadores pela convocação de uma Assembleia Constituinte; ainda nos anos 40 participou da campanha pela paz – o chamado Apelo de Estocolmo – e das articulações em torno da unidade das forças democráticas em Sergipe”.
Segue JB: “Na década de 50, poucos foram tão combativos quanto ele na campanha nacional ‘O Petróleo é nosso’, na defesa da Constituição, em 1955, quando se tentou evitar a posse de JK, e em 1961, quando se tentou o mesmo com João Goulart”. (…) Jackson Barreto conclui: “Por sua participação ativa nas lutas democráticas e populares, o Major pagou um preço altíssimo. Foi preso e processado várias vezes, e, segundo narra Nelson Werneck Sodré, em sua “História Militar do Brasil”, João Teles foi vítima de bárbaras atrocidades em 1952, mas sua têmpera o fez resistir a tudo e nunca ensarilhar armas”.

Afonso Nascimento, professor de Direito Aposentado da UFS

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