Labatut em Laranjeiras

A convite do príncipe regente e do ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, Pedro Labatut foi admitido como brigadeiro em 3 de julho de 1822. Sua experiencia nas Guerras Napoleônicas e revoluções americanas (EUA e Colômbia) endossaram a contratação

* Thiago Fragata
Sergipe foi capitania dependente da Bahia, da sua fundação em 1/1/1590, até o Decreto de Dom João VI, de 8/7/1820, quando instaurou-se um processo de autonomia fundido e manietado pela Independência do Brasil. Em meio às “guerras de independência” – que tinha a Bahia como oposição – o mercenário francês Pedro Labatut, liderando o Exército Pacificador, montou quartel general em Laranjeiras/SE, em outubro de 1822. Divulgar a efeméride encerra o esforço da pesquisa.
Com a transferência da Família Real Portuguesa para o Brasil, em 1808, as Cortes de Lisboa convocaram assembleia constituinte visando pressionar o retorno da realeza e restabelecer a ordem colonial. No contexto de 1820, a Bahia aderiu à Revolução Constitucionalista do Porto e rebelou-se contra as ordens emanadas do Rio de Janeiro, então capital do Império. Em fevereiro de 1822, o general português Inácio Luís Madeira de Melo assumiu Salvador, pondo seus opositores a estabelecerem como sede da resistência em Cachoeira, no Recôncavo. Da parte de D. Pedro I, sediado no Rio de Janeiro, era preciso formar um exército com o apoio das províncias leais como Pernambuco e Alagoas. A convite do príncipe regente e do ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, Pedro Labatut foi admitido como brigadeiro em 3 de julho de 1822. Sua experiencia nas Guerras Napoleônicas e revoluções americanas (EUA e Colômbia) endossaram a contratação.
Labatut organizou e treinou o “Exército Pacificador”. No dia 14 de julho de 1822, embarcou o efetivo (18 oficiais e 260 soldados) na esquadra comandada pelo Chefe de Divisão Rodrigo Antônio de Lamare, composta pela fragata União, duas corvetas (Maria Gloria e Liberal) e do brigue Reino Unido. (1) Em Recife arregimentou mais 250 soldados da força pernambucana; somando mais de 500 homens que no final de agosto desembarcaria no porto de Maceió, Alagoas. “A notícia de sua chegada em Alagoas espalhou-se em Sergipe e fez reunir em Villa Nova [Neópolis] os adeptos do partido recolonizador, que lhe ofereceram uma atitude hostil e ameaçadora para não pisar em território sergipano (…) estavam prontos e dispostos a resistir”, informa Felisbelo Freire, nosso principal historiador. (2) O último expediente articulado pelo Capitão-mor de Ordenanças de Vila Nova, Bento de Mello Pereira, foi dispor efetivo com 9 peças de artilharia e praças de 1ª. Linha da Bahia. Esse bivaque constituía a “tentativa de impedir a junção das tropas de Labatut com os patriotas baianos” (3)
Por essa razão as tropas pacificadoras estacionaram na vila de Penedo, em Alagoas, depois de penosa marcha pelos sertões, em meados de setembro. Na manhã de 2 de outubro, o general Labatut foi surpreendido com a mudança em Vila Nova, do outro lado do Rio São Francisco. O lado inimigo fez a aclamação do Príncipe Regente D. Pedro I, razão da expedição. Dessa forma, sem refrega militar, o exército Pacificador atravessaria o território Sergipano, negociando com os proprietários de terras um governo autônomo.
Ao chegar em Laranjeiras, o General Labatut aquartelou seus homens. O padre Filadelfo Jônatas Oliveira informa na História de Laranjeiras Católica, que a cidade “apresentou muitos filhos para a defesa da Independência do Brasil e abrigou em seu seio durante 22 dias o grande general Pedro Labatut, quem muito concorreu para a Emancipação de Sergipe”. (4)
Pertinente destacar que o Exército Pacificador encontrou um “armistício” em Sergipe, porque enquanto Labatut marchava pelo sertão alagoano ao norte, o Capitão Mor de Itapicuru João Dantas, deslocava seus homens na região sul de Sergipe, negociando adesão a Sagrada Causa do Brasil, no caso, a aclamação do Príncipe Regente. Em resumo, sua atuação precedeu a do general francês (5)
Labatut marchou para Laranjeiras com tropa com efetivo de 500 homens, secundarizando a capital São Cristóvão. O governador empossado pela Câmara de São Cristóvão, em 19 de março de 1821, Brigadeiro Pedro Vieira de Melo, “transferiu a sede do governo para a povoação de Laranjeiras, onde encontrava respaldo dos senhores de engenho da região da Cotinguiba”. (6). A afamada oposição foi dissolvida por completo na presença do militar francês. “Com habilidade – escreve Thetis Nunes – Labatut soube convencer os sergipanos a acatarem suas determinações, fazendo, porém, sentir que, se encontrasse resistência os obrigaria à força das armas”. (7).
O abastecimento do seu exército ocorreu mediante acareação junto a lideranças e instituições comprometidas e/ou intimadas pelo próprio General Labatut. Consta que o leader exigiu o repasse do Fundo dos Ausentes e confiscou bens de portugueses que evadiram-se de suas propriedades e serviços; também exigiu doações de senhores de engenho, burocratas e comerciantes apostatas; incumbiu Guilherme José Nabuco d’Araujo e José de Barros Pimentel, senhor de engenho em Laranjeiras, do gerenciamento das caixas militares “destinadas a recolher, daqueles que tinham recursos, especialmente os portugueses, dinheiro, mantimentos e vestimenta. Em Laranjeiras, por exemplo, no ato solene de 12 de outubro, data natalícia do regente, Labatut declarou réus de lesa pátria e inimigos do Império José Alves Quaresma, Francisco José da Rocha, José Caetano de Faria e do padre José Antônio Gonçalves de Figueiredo tendo “confiscado seus bens em benefício do Exército Pacificador da Bahia”. Na ocasião, fez a “Proclamação aos habitantes das Laranjeiras”, exaltando o protótipo dos Regentes (D. Pedro I), denunciando traidores locais, concitando todos a obediência a nova ordem política. (8)
Dos atos e do lacunar itinerário do General Labatut em território sergipano vale registrar também: Em São Cristóvão (18/10) de outubro, dissolução da Junta Governativa capital, empossou novo governador Elói Pessoa. Em Estância recebeu mantimentos e provisões, em Itabaianinha acampou tropas no Engenho Campo da Barra, do Capitão João Martins Fontes. (9)
No dia 27 de outubro, Labatut e o Exército Pacificador pisaria solo baiano, quando finalmente, deu-se a junção as forças patrióticas. Os historiadores são unanimes em afirmar que “Sua chegada à Bahia alterou significativamente o curso da guerra, transformando grupos armados em um exército regular, o primeiro do Brasil independente, por ordens do Rio de Janeiro.” (10)  No dia 8 de novembro, como senhor da guerra, obteve uma vitória significativa sobre as tropas de Madeira de Mello no combate de Pirajá. Mas apesar dos triunfos, Labatut foi deposto em maio de 1823 – 2 meses antes da batalha final! –  Por uma conspiração liderada por Lima e Silva, com apoio do Conselho Interino de Governo e influentes senhores engenho. (11).
A vitória do Exército Pacificador no dia 2 de julho de 1823 consumou, definitivamente, a Independência do Brasil, garantindo a unidade nacional. A inegável contribuição de Pedro Labatut e a defesa interposta para justificar seus “excessos” em nome da causa maior, de pronto serviu para absolvição e homenagens. Para João Ribeiro, renomado filólogo e historiador laranjeirense, Labatut “foi destituído pela Junta de Cachoeira, pelo influxo de Felisberto Gomes Caldeira e alguns oficiais que lhe tinham má vontade”. O tal Felisberto era ligado interesses baianos inviabilizados por conta da conduta do Chefe do Exército Pacificador em favor dos anseios autonomistas de Sergipe. (12)
Como brioso militar, o francês atuaria ainda reprimindo insurreição no Ceará, aonde suas atrocidades incutiram no imaginário das populações sua imagem um tanto mítica e bestial. No dicionário do folclore brasileiro, de Câmara Cascudo, “Labatut é um monstro com forma humana, antropófago, vivendo na região de fronteira do Ceará com o Rio Grande do Norte, especialmente no Chapadão do Apodi”. (13)
* Thiago Fragata, historiador, poeta, multiartista. Texto integra novo livro “Personas gratas: visitantes ilustres em Laranjeiras”. E-mail: thiagofragata@gmail.com
NOTAS DA PESQUISA:
1 – NUNES, Maria Thetis. Sergipe Provincial I (1820-1840). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000, p. 63; 2 – FREIRE, Felisbelo. História de Sergipe. 3ª. Ed. Aracaju: IHGSE; São Cristóvão: UFS, 2013,  p. 304; 3 – NUNES, Maria Thetis. Sergipe Provincial I (1820-1840). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2000, p. 63; 4 – OLIVEIRA, Filadelfo Jônatas de. História de Laranjeiras Católica. 2ª. Ed. Aracaju: DEGRASE/Sec. de Cultura de Sergipe, 2005, p. 65; 5 – NUNES, 2000, p. 66; 6 – NUNES, 2000, 48; 7 – NUNES, Maria Thetis. História de Sergipe a partir de 1820. RJ: Livraria e Editora Catedra; Brasília: INL, 1978, p. 57; 8 – Arquivo Nacional: Secção de Manuscritos. Anexo 3 – NUNES, 1978, p. 148-149; 9 – DORIA, Epifânio. Efemérides sergipanas – vol II. [org.: Ana Maria da Fonseca Medina]. Aracaju: Gráfica J. Andrade, 2009, p. 528; 10 – SAMPAIO JR, Hamilton Ferreira. Pedro Labatut, o verdadeiro pirata do Caribe https://rastroancestral.com.br/pedro-labatut-o-verdadeiro-pirata-do-caribe/, acesso 23 de dezembro de 2025; 11 – KRAAY, Hendrik. Independência é liberdade. Revista História da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, ano 4, N. 48, setembro 2009, p. 23; 12 – TORRES, Acrísio. Pó dos arquivos. Brasília: Thesaurus Editora Ltda, 1999, p. 299; 13 – CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6º. Ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1988, p. 425.
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