Lembrança de Cuba

Na flauta (Divulgação)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Acompanho o debate a respeito da escala de trabalho imposta à brava gente deitado numa rede. Uma vez mais, estou com Lula. Meio intelectual, meio vagabundo, sou incapaz de conceber uma vida dedicada exclusivamente ao trabalho.
Penso em Cuba. Anos atrás, o amigo Antonio Passos voltou de lá deslumbrado. Quinze dias batendo perna na ilha o convenceram a andar pisando em nuvens, irmão de tudo o quanto é leve.
Eu, desde sempre a favor de levar a vida na flauta, aproveitei o ensejo e declarei aqui mesmo a minha adesão à causa. Uma coisa de cada vez, charuto no bico, sem pressa nenhuma. Com fé em Deus, o assovio e o rum derrubarão Guantánamo – uma festa animada pelos tambores negros da Santeria.
Segundo Passos, vive-se em Cuba como em nenhum outro lugar do mundo. Às 17 horas ninguém trabalha mais e as praças são inundadas de alegria. A Revolução teria alcançado o feito de inventar uma vida que vale a pena, apesar de todos os embargos e pesares. Um exemplo a ser seguido. Um modelo que insufla coragem. Ele viu com os olhos que a terra há de lhe comer, um dia.
O desafio é de vestir a carapuça, assumir a indolência e o trato cordial atribuído a todo brasileiro. Dar um jeitinho. Furar a fila e o sinal vermelho. Cantar ‘Soy loco por ti, America’ e um piseiro de João Gomes a plenos pulmões. Aprender a ginga doce de cariocas e baianos, bonitos por natureza, miscigenados. Proclamar, enfim, a nossa envergonhada verdade tropical na cara dura.
Divago, mas volto à ilha. Buena Vista Social Club, Reinaldo Arenas, Pedro Juan Gutiérrez. Estes, os donos legítimos da ilha. A mim, pouco importa se Fidel Castro, líder da Revolução, foi herói ou ditador. Isso é lá com as narrativas tecidas pelos interessados no espólio. Cuba é dos cubanos, para lembrar um ensaio repleto de cor realizado pelo fotógrafo Álvaro Villela. Aqui, importa celebrar a vocação de um povo para tudo o que realmente importa, a beleza, a alegria.
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