Rian Santos
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O presidente Lula declarou com todas as letras: prestes a completar 80 anos, pretende disputar um quarto mandato. Sente-se forte, ele garante. Tão disposto agora quanto aos 30.
Envelhecer bem é um feito ao alcance de poucos. Comparo o focinho do presidente octogenário com a fachada cansada de certas lideranças locais. Percebo, então, como o tempo pode ser cruel com os ineptos.
Burro, Lula nunca foi. Personagem incontornável da política nacional, desde o fim da ditadura instaurada pelo golpe de 64, ele sempre exerceu influência notável sobre os rumos do País. Mesmo quando foi derrotado nas urnas, mesmo enquanto esteve trancafiado numa cela, o seu destino sempre se confundiu com o destino coletivo dos brasileiros.
Atenho-me aos fatos, sem necessidade de responder aos acenos da paixão. Antes de ser eleito presidente da República uma primeira vez, ainda uma incógnita, Lula já ocupava os latifúndios improdutivos do pensamento nacional, acampado no imaginário da nação.
Ateu e macumbeiro, meio comunista, meio coronel, Jorge Amado anotou em suas memórias, reunidas no livro Navegação de Cabotagem:
“Atento, acompanho nos vídeos a trajetória de Lula, candidato do poderoso Partido dos Trabalhadores, cuja fundação durante o regime militar tanto me alvoroçou. Não conheço Lula pessoalmente, dele falam-me bem e acredito. Parece-me homem direito, hoje coisa rara, sua atuação de líder sindical na greve dos metalúrgicos, durante a ditadura, foi exemplar. O alarmante sectarismo de seu discurso eleitoral, ao que tudo indica, não é inerente a sua personalidade, decorre da própria campanha, influência talvez dos ideólogos do PC do B, que a dirigem e orientam”.
Como se sabe, o tempo daria razão ao escritor das putas e dos vagabundos, no dizer dos desafetos. Hoje, no auge da lucidez e da maturidade, um respeitável senhor de cabos brancos, doa a quem doer, Lula ainda dita e orienta. E isso, independente de qualquer diploma, alheio à brevidade do poder conferido por um pedaço de papel.


