Rian Santos
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O Natal Iluminado promovido pela Prefeitura de Aracaju, ano passado, foi submetido ao escrutínio da Câmara Municipal. Falava-se em valores astronômicos, irregularidades cabeludas. Mas a CPI acabou em pizza – não acusou, nem indiciou ninguém.
Era previsível. Sensíveis demais ao humor da prefeita Emília Corrêa, para quem nada do que foi bem-feito e realizado em gestões anteriores teve serventia, os senhores vereadores estavam ansiosos para achar pêlo em ovo. Assim, iludidos pela miragem de uma terra arrasada, deram com os burros n’água.
Oportunamente, Emília realiza agora a sua própria versão do Natal Iluminado – rebatizado, com notável inflexão carola, de Natal das Famílias. Reconhece, portanto, as virtudes do show de luz realizado nos anos de Edvaldo Nogueira.
Sim, o então prefeito espantou o escuro para bem longe do Centro de Aracaju. Todo fim de ano, milhões de pontos de luz deslumbravam nativos e turistas, todos virados em mariposas em volta de uma lâmpada, povoando o umbigo da capital sergipana.
Assim, por força de um espetáculo luminoso, excepcionalmente, o poder público municipal ofereceu segurança e bons motivos para qualquer um passear no coração da cidade até altas horas, inesperadamente à vontade no miolo da cidade.
Em verdade, contudo, o Centro não é um, mas vários. Ao longo do dia, a maior parte do ano, o comércio popular atrai multidões de consumidores indiferentes à História impregnada nas pedras do Calçadão. Cai a noite, contudo, o comércio é outro. Putas, travestis, gatunos e viciados encontram guarita na escuridão.
O abandono do Centro Histórico não é exclusividade da capital sergipana, onde prédios desabitados vacilam alheios a qualquer imperativo de função social. Brasil afora, a situação é a mesma. Para o cenário virar outro, falta um projeto com ambição transformadora, a ambição que mudou um amontoado de palafitas em verdadeiro espaço público, com saneamento e tudo, ali no mangue da coroa do meio.
O Natal Iluminado provou: se o poder público assim quiser é bem possível viver Aracaju como cantou Ismar Barreto – de uma ponta a outra, o Centro e as periferias, sem medo de ser feliz.


