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MEMÓRIAS DO BAIRRO DA ESTAÇÃO DE SALGADO


Publicado em 10 de julho de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Afonso Nascimento
Sou um brasileiro natural de Salgado, em Sergipe.Assim está escrito na minha certidão de nascimento: nasci em 2 de agosto de 1954 e em breve serei um setentão. Falo adiante da Salgado onde nasci e vivi meus primeiros anos de vida e, na qual, depois, enquanto menino e adolescente passava férias escolares duas vezes por ano. A Salgado de minhas lembranças aqui não tinha água encanada, pavimentação asfáltica, luz elétrica, etc. Foi nessa cidade pequena onde criei afetos sobre lugares e pessoas, especialmente em relação a meus parentes. Dela guardei muitas lembranças que economicamente passo a relatá-las.
Para começo de conversa, deixe-me dizer uma palavrinha sobre Salgado. Salgado é uma cidade que parece não ter mudado nessas seis ou sete décadas. Fica situada numa colina, onde está a parte mais importante de seu casario. Numa rua principal, que vai da igreja católica ao mercado municipal, estão as casas das classes afluentes da cidade: proprietários rurais e grandes comerciantes. Em frente da igreja, está uma enorme praça, com casario dos dois lados, que vai até lá embaixo onde fica a sua famosa piscina, buscada para cura e lazer. À esquerda da piscina tem habitações que levam à Chácara João XXIII e uma estrada que liga o centro à cidade de Estância. A novidade que percebo hoje, comparando com meus tempos de criança e de adolescente, foi a mudança na rua do Cemitério, hoje transformada numa grande área comercial. O território de Salgado de minhas recordações tinha criação de gado, plantações de fumo e de laranjas. E muitos sítios.
Foco de meu interesse aqui, o bairro da Estação deve ter surgido com a chegada da linha de ferro com os seus trens. Pensando nisso, não dá nem para imaginar um povoado naquelas redondezas sem a ferrovia. Talvez uma ou outra casa de fazendeiro. Agora, com a estação, pessoas escolheram morar por lá. Tinha uma grande rua, de um lado e de outro da estação. Duas fileiras de casas. Era possível chegar ao bairro vindo do centro de Salgado, através da mesma estrada que trazia gente de Estância para tomar o trem. A outra porta de chegada para o bairro era pela rodovia que saía de Itaporanga e ia até Lagarto e, no posto fiscal, tomava direção da Estação.
Os comerciantes foram os primeiros a chegar no bairro da Estação. Construíram armazéns, pensões para os viajantes, bar de sinuca e de bebidas, um posto de gasolina, bodegas, uma empresa de ônibus que levava e trazia passageiros para os trens e um cinema com seu auto-falante. Entre as casas comerciais, viviam os outros moradores ordinários. E dois deles eram os meus avós maternos, na principal fileira de casas.Lembro-me de alguns nomes desses comerciantes: Seu Menininho, pensão; seu Toinho: mercearia e bomba de gasolina, gaiolas, ferramentas, etc.; Seu Nozinho: pensão e restaurante; Seu Argemiro: bar e sinuca; Seu Rodrigues, padaria e sorveteria; seu Dino: armazém ou bodega; seu Antônio Barbadinho: empresa com ônibus, caminhão e um cinema que funcionava nos fins de semana.
Devo escrever um pouco sobre seu Barbadinho, o vizinho de meus avós. Era proprietário de um ônibus e de um caminhão. O ônibus era usado para o transporte de passageiros que desembarcavam dos trens e seguiam viagem com destino a Lagarto e depois Simão. Esse mesmo ônibus, no dia seguinte, trazia outros viajantes para a estação de Salgado. O seu caminhão tinha múltiplos usos, sendo um deles o transporte de mercadorias trazidas pelos trens de cargas.
Seu Barbadinho também era dono do único cinema de toda Salgado. Não sei se ele comprou ou construiu o prédio. Esse cinema funcionava aos sábados e domingos à noite. Nele assisti filmes de caubois, filmes ambientados na Grécia e na Roma antigas. Os espectadores eram pessoas que moravam no bairro, mas não somente. Em dias de exibição, seu Barbadinho trazia gente do centro da cidade e de povoados em seu ônibus e até em seu caminhão, com o que garantia casa cheia.
Não sei dizer se todos os proprietários de fazendas, localizadas perto do bairro da Estação, moravam por lá. Só tenho certeza de um: seu Totonho Costa. A sua casona ficava nos fundos da casa dos meus avós. Era lá que pessoas, como meu avô, iam comprar leite de manhã quase diretamente do peito da vaca. Ao lado de sua casa, estava o curral para os seus bois e suas vacas. No fim de cada tarde, o gado de seu Totonho era trazido por vaqueiros para o curral. Para mim, menino do Siqueira de Aracaju, era uma festa subir nos corredores de madeira do curral e observar o gado entrar em fila! Ainda sobre seu Totonho, ele teve muitas filhas e dois filhos. Eram mulheres jovens muito bonitas e levavam tecidos e modelos de vestidos da moda até a casa de minha tia modista ou costureira, para que ela os costurasse. Durante as férias de verão, essas patricinhas e esses mauricinhos e seus amigos, iam a pé da Estação à piscina do centro de Salgado com seus cajados nas mãos. Davam um show de esnobismo de classe para quem quisesse ver.
Ocupo-me agora da estação, o seu prédio físico.O seu telhado possuía a forma de um “v” de cabeça para baixo e o cumprimento de talvez de 100 metros. Tinha alpendres nos seus dois lados ea forma retangular. Não lembro de sua cor, mas suponho que era marrom. Lembro de uma plataforma, a sala do telegrafista, o local de venda de ingressos e mais alguma sala. Possuía linhas com trilhosem cada lado. Duas “alianças” eram usadas para desviar os vagões das vias principais e enviá-lospara os estacionamentos para cargas de mamona, fertilizantes etc. A caixa d´água ficava um pouco depois da estação no sentido de Aracaju. A “casa da turma” estava situada em frente à casa de meu avô do outro lado de sua rua.
Dois tipos de trem passavam por Salgado. Os primeiros eram os trens de passageiros. Havia dois. O “Suburbano”, que saía às 4 da manhã de Salgado até Aracaju e da capital partia às 4 da tarde, chegando às 7 horas da noite. Levava três horas para ir e mais três voltar, com paradas nas cidades de seu trajeto. O outro trem de passageiros, chamado “Horário”, ia de Aracaju a Salvador e vice-versa, dia sim, dia não. Parava na estação de Salgado às 7 da manhã. Os demais trens eram de transporte a que já me referi. É forte a lembrança dos apitos desses trens, chegando e partindo.
Meus avós, seu Nascimento e dona Caçula, viveram em duas casas em Salgado. A primeira estava localizada na Turma, que era um povoado mais perto do centro de Salgado do que a Estação. O seu nome Turma se devia ao fato de que porque lá era o lugar onde existia uma pequena casa na qual eram guardados os equipamentos dos ferroviários e onde o grupo de ferroviários se reunia para começar e terminar o dia de trabalho. A casa de meu avô, chefe dos garimpeiros, ficava a cerca de 200 metros do local. Dessa casa, me lembro pouco, a não ser de seus pés de goiaba e de um riacho bem fininho que passava pelo quintal. Não esqueci que tinha um casal de idosos do outro da rua a quem meus avós me faziam pedir a benção. Como a sua casa era um sítio, eles sempre me ofereciam frutas.
A casa da Estação me parecia grande. Era de platibanda. Tinha uma sala de estar, onde minha avó tinha uma cadeira de balanço, entre outras cadeiras normais e uma mesinha de centro. Depois vinha o quarto de meus avós, seguido por outro que era o de minha tia mais nova, quando solteira. Em frente a esses dois quartos, havia mais um onde eu dormia. Seguindo em frente, lá estava a sala de jantar, com uma cadeira grande bem inclinada, uma prateleira, mesa, cadeiras e duas janelas, uma de cada lado. Adiante estava a cozinha, com um porrão (pote grande), um pote e uma moringa, além de fogão à lenha de tijolo, carnes e linguiças penduradas, armário com mantimentos e uma pia. Por último, havia um alpendre onde lenha e outras coisas do tipo eram armazenadas. No quintal, tinha um abacateiro alto, um pé de maçã que nunca brotou, uma cisterna grande da qual minha avó procurava afastar a meninada (dizendo nela haver uma “mãe d´água” que pegava menino), uma casinha (privada), um coqueiro anão e pés de frutas (cana, por exemplo) atrás da privada.
Conheci meu avô já aposentado. Afrodescendente, tinha estatura média e era meio “sarará”. Fumava cachimbo na maior parte do tempo e charuto, só quando vinha a Aracaju receber mensalmente a sua aposentadoria, ocasião em que vestia um terno branco de linho. Ia e voltava ou de trem por São Cristóvão ou de marinete por Itaporanga. Gostava de me exibir a seus amigos e levava às bodegas onde eu o via jogar cartas ou dominó. Minhas outras atividades com ele consistiam em ir mercado central aos sábados e às quartas-feiras à feira na mesma Estação. A minha avó Caçula reivindicava sangue indígena, de pessoas oriundas do sul da Bahia. Com minha avó e tias, eu tinha a obrigação de ir às missas dominicais e às procissões (quando coincidia de eu estar lá) no centro de Salgado.
Como me divertia no bairro da Estação? Lembro que tomava muitos banhos de rio, que caçava passarinho com minha baleadeira (estilingue) e que pescava na fazenda de seu Totonho ou em algum pontilhão. Fiz muitos passeios pela linha de trem. Foi em Salgado (e também em Aracaju e Laranjeiras) que aprendi o conceito de “andar na linha”, caminhando na ferrovia da Estação até um rio antes de chegar no bairro ou povoado da Turma. Eu e outros meninos, moradores da Estação, usávamos o prédio da estação para brincar, correr, etc. Às vezes, poucas vezes, íamos à estação no horário da parada dos trens de passageiros.
Quando, durante o regime militar, a ferrovia foi fechada, o bairro da Estação entrou em decadência. As pessoas procuraram outros lugares para viver. Meus parentes também foram partindo aos poucos do bairro da Estação por essa e outras razões.  Nenhum era natural de lá. Meus avós tinham vindo de outras partes. Depois que meu tio Erasmo, ainda adolescente, se tornou telegrafista, foi trabalhar em Alagoinhas, na Bahia. A filha mais nova Eunice se casou com um telegrafista baiano, amigo de seu irmão, e para a Bahia também se deslocou. A filha Elze, minha mãe, casou um ferroviário, meu pai, e seguiu para Pedrinhas, Laranjeiras e Aracaju. A filha mais velha casou com um pedreiro e seguiu trabalhando como modista na Estação, enquanto seu marido trabalhava na construtora do pai de João Alves Filho, voltando para casa nos fins de semana. Mais tarde o casal passou a viver em Aracaju. O meu avô foi o único a morrer e a ser enterrado no cemitério da cidade de Salgado. Já minha avó, sentindo-se solitária depois do seu falecimento, vendeu a casa, arrumou as malas e também veio viver em Aracaju, perto de suas três filhas aqui reunidas pelo destino.
Foi nesses tempos de menino e de adolescente no bairro da Estação de Salgado que conheci Carlos dos Santos, filho adotivo e, portanto, também meu tio adotivo, reencontrado bem mais tarde, com quem vivo há cerca de trinta anos. Ele sempre foi um membro de minha família e se tornou meu melhor amigo e companheiro. Eu pretendo escrever sobre ele em uma próxima ocasião.
* Afonso Nascimento, Professor Emérito da UFS
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