*Acrísio Gonçalves de Oliveira
João Profeta. Era um pescador do Porto d’Areia. Um requisitado fogueteiro. Ao investigar o alvorecer da trajetória fogueteira de Estância para constar no livro “Estância Secular”, foi preciso citá-lo na referida obra dada sua importância no cenário cultural estanciano. João Profeta dos Santos, seu nome completo, mas era também conhecido pelo apelido “João Buiú”.
O sobrenome “Profeta” é de uma antiga linhagem estanciana e já aparece em documentos desde o século XIX. Acreditamos serem as pessoas com esse sobrenome pertencentes à sua árvore genealógica.
É claro que diversos são os nomes envolvidos na trajetória fogueteira estanciana. Nomes como João da Bárbara e suas “rodas de fogo” dos fins do século XIX e das primeiras décadas dos anos 1900; Nylo Cotias, com seu “navio pirotécnico”, também do começo de 1900; ou João Ribeiro, fogueteiro dos anos 1930. João Profeta é um artista da leva de fogueteiros dessa última década. Experiente na feitura de barco de fogo e também de busca-pé.
Em Estância havia regiões ou zonas específicas para feitura do fogo e ao longo do tempo elas iriam se estabelecer em diferentes pontos da cidade, muitas vezes ao mesmo tempo: Cachoeira, Rua Nova, Rua da Baixa, Rua da Chapada, Botequim, Porto d’Areia, Bonfim, Centro, Miranga e até nas Alagoas. Esses eram justamente os locais onde na época moravam os fogueteiros. A tenda de fogo de João Profeta era no Porto d’Areia, mas desenvolveu também atividade fogueteira na rua das Alagoas (atual bairro da cidade). Ele era tão envolvido com os festejos juninos que no começo de 1940, como já escrevi em outro artigo, aproveitou-se “dos repiques dos sinos da Matriz, então ouvidos nos quatro cantos da cidade, conduziu um grupo de pessoas e saiu às ruas convidando os devotos para os festejos”.
Quando alguém escrever sobre a bibliografia fogueteira estanciana, o nome de João Profeta não poderá ficar de fora. Ele havia se tornado nome respeitado dos festejos juninos depois de soltar na Rua Nova, em 1933, o barco de fogo intitulado “Zepelim”. Naquele local sua arte pirotécnica “correu, no seio de um arame”.
No final dos anos 1950, ele também se envolveria nas batucadas, bastante comuns na Cidade Jardim. Chamado pela imprensa de “devoto das brincadeiras juninas”, nesse tempo, em seu reduto, no Porto d’Areia, pensava em apresentar uma batucada e que nela faria “passear” pelas ruas da cidade mais uma de suas artes: um avião. Parecia um tema artístico de sua preferência. O tal avião iria correr nas Alagoas, debaixo da queima de muitos busca-pés!
Tentamos descobrir a origem familiar desse mestre fogueteiro e descobrimos através de arquivos que ele nasceu apenas em 1897. Tomando por base documentos referentes a seu irmão, José Profeta dos Santos, nascido em 1904, o qual até familiares o confundiria com ele, pudemos concluir que sua mãe se chamava Maria Cardoso dos Santos, sendo seu pai Honório Profeta dos Santos.
Outro fogueteiro da família Profeta que descobrimos foi Salvador Profeta. Esse fogueteiro, que viveu nas proximidades da região do porto, ficaria conhecido por ser criador de um busca-pé especial. O “tremendão”. Um fogo gigante, de grande arrojo. Chegamos aos familiares dele através do professor Marcelo Vieira, um fogueteiro que pesquisa sobre a história desses artistas na cidade. Salvador fazia busca-pé com seus filhos, na própria casa. Ele era sobrinho de João Profeta, pois era filho de José Profeta, aqui já mencionado. Maria da Conceição, ex-esposa de Salvador Profeta, disse que ele também chegou a fazer barco de fogo. Não podemos negar que Salvador tivesse como inspiração o próprio tio.
Em 1960, João Profeta era falado. O mestre, nesse tempo, fazia parte da feitura de fogo estanciano e disputava pau a pau com os conhecidos buscapeseiros, mestre José de Clara e José Vermelho. Próximo de junho, quando já se ouviam “pelos quadrantes da cidade os sons das porcas e batucadas” do pisar pólvora, era ele um dos timoneiros dos festejos.
Não sabemos quando o lendário fogueteiro morreu. Ao menos até 1960 estava vivo. O fato é que Profeta singrou o mar de fogo estanciano por mais de 30 anos! Foi inventivo. Um bruxo da pirotecnia. Inigualável!
*Acrísio Gonçalves de Oliveira, escritor e pesquisador, professor do Estado e da Rede Pública de Estância


