NÃO RECOMENDO A IDA DE NINGUÉM A UMA UTI HOSPITALAR

José Afonso Nascimento

Estive mais uma vez internado em uma UTI de hospital de Aracaju. Não quero discutir aqui as razões. Quem quer saber das doenças dos outros? O que importa mesmo é mesmo a mensagem que gostaria de passar às pessoas que são minhas amigas: podendo, não busquem a UTI de qualquer hospital. Eu sei do que estou falando!
Antes dessa última passagem hospitalar, eu já tinha estado internado duas outras vezes! O que vi e vivi dessa vez foi assustador e isso me fez fazer a recomendação que você está no processo de lê-la.
Dessa vez, eu não lembro como desembarquei no hospital. Fiquei sabendo por meus transportadores que foi através de ambulância do SAMU. Sobre como entrei na viatura, não me recordo. Lembro vagamente de mim sobre uma maca, circulando pelos corredores nervosos do hospital, fazendo exames, enfim, relato isso com o mais alto nível de imprecisão possível. Vencida essa fase, começa aquela que considerei horrível e que não desejo a ninguém.
Os leitos de cada UTI desse hospital são separados uns das outros por cortinas, ou seja, “paredes” móveis que nem sempre estão fechadas. Na unidade em que fiquei internado, havia dez ou quatorze leitos do mesmo tipo.
À minha esquerda e em minha frente estava internado um senhor na faixa etária dos sessenta anos. Ele não me via. Na verdade. não via ninguém. Parecia um “vegetal”, mantido vivo que era por aparelhos, suponho. De vez em quando, quadros de funcionários subalternos da UTI do hospital lhe diziam alguma coisa ao seu ouvido, o que que lhe provocava a ativação de algum sinal vital no monitor pendurado acima dele, como a gente vê na TV e no cinema.
Num certo momento, os números do monitor ficaram vermelhos ou pararam. Foi uma correria total! Cena desespero! Eu pedi à enfermeira mais próxima para que fechasse a minha cortina. Eu não precisava ver aquilo! Era insuportável ver aquele sofrimento humano diante de mim. Ele foi reanimado e o deixei com vida no hospital.
Antes disso, porém, uma fisioterapeuta fez um trabalho que permitiu que aquele paciente ficasse sentado, sempre com a boca aberta, por meia hora, mais ou menos. E, para complicar a minha situação emocional, ela se dirigiu a mim e me perguntou se eu queria – imagine só! – que o mesmo fosse feito comigo. Eu agradeci e expliquei que estava aguardando a liberação de um apartamento! Não queria ser “estátua de hospital”, de frente para alguém que parecia moribundo!
No outro leito de UTI quase à minha frente e à direita, lá estava uma senhora que também não parecia ter tanta idade. O que isso tem a ver para estar internado numa urgência de hospital? Trocamos olhares muitas vezes. Companheiros de barco? Um ou dois dias antes de eu ser deslocado para um apartamento do hospital, apareceu alguém, de paletó e gravata, que reconheci imediatamente como advogado. Eu o conhecia da reitoria da UFS. Por que estaria ali? Falaram um junto ao ouvido do outro, auxiliado por um familiar. Testamento? Ela tinha decidido desistir de viver? Foi o que pensei.
No mesmo dia, mais tarde, chegou um casal. A mulher fazia trabalho de manicure, pedicure, passava um “rouge” no seu rosto para nele pôr um pouco de vida (uma máscara funerária?), arrumou o seu cabelo, etc. O marido da profissional do embelezamento de quase defuntos, com a ajuda de seu filho, cuidava do resto do seu corpo, na parte inferior.
Cheguei a um ponto em que não consegui controlar minha ansiedade e minha curiosidade. Aí eu lhe perguntei: “Preparando?” Ele disse que sim e me reconheceu por termos trabalhado na UFS. Aquela cena e aquela conversa – eu bem que poderia ter me poupado. Enfermeira, agora, feche a cortina direita!
Como já disse acima, não recomendo a ninguém a sua ida a qualquer UTI de hospital. Isso vale para amigo, parente ou desconhecido! Mas, se precisar, sim, vá correndo receber o seu tratamento médico. Não perca tempo! Quanto a mim, estou me preparando para que nova experiência hospitalar como a recém-vivida nunca mais me aconteça.

José Afonso Nascimento, professor aposentado da UFS.

Compartilhe esta notícia