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Narrativas e Interpretações


Publicado em 14 de junho de 2023
Por Jornal Do Dia Se


Abraham B. Sicsú

Fico assustado. O anúncio é devastador. É só abrir os jornais e as mídias eletrônicas para verificar. É dado como certo o prenúncio do fim de um governo que está começando. O caos estaria implantado.
Dizem que as derrotas são acachapantes. Que o Executivo está na mão do Legislativo. Que se terá de ceder em tudo que o presidente da Câmara exigir. Que a coordenação política é um fracasso. Exige-se uma mudança de Ministérios, mesmo daqueles mais técnicos, como o da Saúde. Escutei até que o Presidente da República deveria se afastar por seis meses para permitir um freio de arrumação. Estranho acharem que o Vice, que coordenou a transição, não esteja comprometido com os mesmos propósitos que norteiam os caminho ora adotados.
Vou aos fatos, números, não consigo ver esse quadro desastroso.
Na economia, o crescimento do PIB tem sido muito maior do que o previsto pelos analistas mais otimistas. A inflação está sob controle e desafia os analistas céticos. Os juros só não caem por teimosia dos dirigentes do Banco Central. Todos os segmentos de nossa sociedade, até os empresários, imploram a queda. O novo arcabouço fiscal avança celeremente e substituirá o famigerado teto de gastos. A reforma tributária vai se desenhando e tem boas perspectiva. Evidentemente, concessões têm que ser feitas, afinal estamos numa democracia.
Apontam como um desastre a aprovação do novo perfil administrativo. Dizem que os ministérios do Meio Ambiente e dos Povos Originários perderam sentido. Novamente, acho estranho.
Houve o anúncio do mais ousado plano para a Amazônia. Dezessete Ministérios, coordenados pela ministra Marina, com metas bem definidas e recursos garantidos. A fiscalização aumenta e o garimpo e a grilagem diminuem enormemente. Está nos jornais. Lula veta o desvario que ameaçava ainda mais a já devastada Mata Atlântica. Os avanços são observados e têm reconhecimento internacional.
No que tange aos povos indígenas, não há dúvida que o Marco Temporal é um retrocesso. Mas, bom lembrar, não foi ainda consolidado. Passou na Câmara, tem que ser aprovado no Senado. Articulações são feitas e há possibilidades de reversão. No Supremo, um ministro pede vistas. Mecanismo legítimo de postergar decisão. Cabe chamar a atenção que só tem noventa dias. Dias em que há um recesso no Congresso, em que podem ser tomadas atitudes para segurar a definição final dos parlamentares. Um jogo democrático que tem que ser jogado. Enquanto isso são recuperadas as instituições de fiscalização e proteção aos indígenas, inclusive no evitar novas invasões e no dar assistência à saúde necessária.
Avanços são vistos em outras áreas. A Ciência, Tecnologia e Inovação, área tão desprezada e atacada nos últimos anos, vê a garantia do Fundo Nacional de Desenvolvimento- FNDCT ter os devidos recursos alocados, os valores das Bolsas são recuperados em parte, novos mecanismos têm sido apresentados para a inovação, inclusive novos perfis de bolsas, o MCTI participa efetivamente da agenda internacional do país, fundamental para a dinâmica dessa área.
Os Programas Sociais avançam muito. O Bolsa Família, resgatado e reorientado, evitando as distorções e o uso eleitoreiro que lhe tinham sido dados, os programas habitacionais sendo aprovados no Congresso, a volta da Farmácia Popular. Bom lembrar do Desenrola Brasil, programa criado para minorar o sofrimento de uma classe baixa e média baixa, tão endividada, tão sofrida. Tudo o prometido é entregue. Sem nenhuma concessão, sem mudar os objetivos propostos para o atual governo.
Importante notar que há correções de rumos. Um programa que seria apenas para a classe média, baseado em uma indústria âncora de desenvolvimento, a automobilística, o do carro “quase popular”, é modificado e inclui, eu diria prioriza, o transporte urbano por ônibus, a renovação da frota de caminhões, fundamental para diminuir o custo Brasil e viabilizar um controle mais eficiente nos fretes e no custo de vida.
Ressaltar os avanços dados em menos de seis meses não significa desconhecer as dificuldades que foram e serão enfrentadas. Não significa ignorar aspectos estruturais, por exemplo, a existência de um Congresso conservador frente a um Executivo progressista.
O poder tem diferentes Blocos e essa é uma realidade que tem de ser enfrentada. O agronegócio tem dado uma contribuição efetiva para diminuir as dificuldades atuais, no entanto, tem reivindicações específicas, que devem ser analisadas e, dentro do possível, contempladas ou não. Como foi feito com o Plano Safra que chegou ao maior patamar da história. Choques de interesses sempre existirão e cabe ao governante decidir tendo em vista o projeto maior para o país.
O Mercado Financeiro apresenta uma pauta e tem força de pressão junto à parcela significativa dos congressistas. A queda dos juros passa pela sua versão a ser desmistificada. As bancadas religiosas são fortes e podem barrar concretamente os avanços na pauta de costumes que parecem necessários. Com essas Bancadas, respeitadas na sua representação popular, deve-se negociar e buscar caminhos conciliatórios.
Muitos obstáculos serão encontrados para consolidar o rumo idealizado. No entanto, acreditar na narrativa criada pelos responsáveis pela difusão de informações, divulgadas pelos principais meios de comunicação e analistas, não bate com o que a vida concreta do Brasil tem apresentado. Vender a imagem de um governo desarticulado e sem norte político é inconseqüente, não condiz com os dados observáveis. Sempre serão possíveis narrativas várias, interpretemo-las frente aos dados concretos do país real.

Abraham B. Sicsú, professor aposentado do Departamento de Engenharia de Produção da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e pesquisador aposentado da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco)

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