Prof. Dr. Claudefranklin Monteiro Santos
Aguardei as manifestações do último dia 7 de setembro para poder escrever o presente texto. Mais do que ansioso, estava na expectativa de poder expressar, mais uma vez, o que sinto do Brasil atual e das demandas do tempo presente, sobretudo no campo político, social, econômico e cultural. Valho-me, como de costume, da rica cultura musical do país para traduzir pensamentos, ideias, mas também angústia e revolta. Pois é necessário indignar-se sempre. A indignação move e alimenta as consciências e dá o tom das ações transformadoras.
“Deitado eternamente em berço esplêndido” (Joaquim Osório Duque Estrada), fiquei com um olho na televisão e nas redes sociais e outro num copo de cerveja bem gelado. Afinal, “(…) antes do almoço é muito bom prá ficar pensando melhor” (Chico Science). Chamou minha atenção, e isso de há algum tempo, a onda “patriota” de alguns, como se ostentar a Bandeira Nacional diferenciasse o bem do mal, por exemplo. Casas e carros ornados com um dos maiores símbolos do país, não necessariamente para demonstrar amor à pátria, mas a um “líder” raivoso, desorientado, desloucado e sem noção: “A moça feia debruçou na janela / Pensando que a banda tocava pra ela” (Chico Buarque).
Antes tivesse sido o “Teatro dos Vampiros”, de Renato Russo ou o trem fantasma dos parques de diversão das festas do interior. Não. Umaturbaaparentemente conhecer de fato Jesus e ter vivido uma experiência efetiva com Ele, pessoas até de meu convívio social, num delírio coletivo, verde e amarelo. Nada patriota! A que ponto nós chegamos! Ou será que estavam escondendoa vergonha de serem alienados, misóginos e a defenderem o que não se discute, mas se combate?
“Eu é que não me sento / No trono de um apartamento / Com a boca escancarada, cheia de dentes / Esperando a morte chegar” (Raul Seixas). Calar-se é quedar-se. Não agir é deixar que o bicho feio vire de fato papão. Não sou filho da outra e “Nem uma pátria me pariu” (Titãs). Não vou deixar as pedras falarem por mim. Se necessário, eu grito. Não aquele grito surdo de dom Pedro I, mas o barulho do trovão reluzente de Metal contra as nuvens: “Não sou escravo de ninguém / Ninguém senhor de meu domínio” (Legião Urbana).
Duzentos anos, mil perguntas sem respostas.
Duzentos anos, quase setecentas mil vidas perdidas para a COVID-19.
Duzentos anos, milhões em orçamento secreto.
Duzentos anos, inúmeras e incontáveis mentiras e injustiças.
Duzentos anos e outros tantos motivos para (deixar) de comemorar. REFLETIR.
O rei da confusão não é João. O pai da mentira não é o diabo, somente. O bobo da corte sou eu e você. A peleja do diabo contra o dono do céu tem nome, sobrenome e bordão cafona, ultrapassado, falso e dúbio. “Ideologia. Eu quero uma para viver” / “Meu partido é um coração partido” (Cazuza).
Enquanto essa nação for tratada como “pátria”, nunca seremos verdadeiramente povo. O Brasil é mais que isso! Seu todo, inclusive com sua diversidade, é tudo e não é a parte quem deve ditar os rumos da nação e dizer como as pessoas devem ser ou se comportar ou quem acreditar. Quero mesmo é me sentir numa MÁTRIA, onde não nos falte colo, ombro, carinho, atenção e cuidado: “Já podeis, da Pátria filhos / ver contente a MÃE gentil” (Evaristo da Veiga).


