Rian Santos
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A poesia de Pablo Neruda nunca me comoveu.
A biografia redigida de próprio punho, ao contrário, uma confissão realizada em primeira pessoa, é dos depoimentos capazes de iluminar os caminhos percorridos por povos inteiros.
Bicho político, devoto da causa comunista, o poeta chileno viveu no olho do furacão, obrigado a testemunhar os tristes intervalos entre os fins e os meios adotados pelas imperfeitas revoluções socialistas – uma distância imensa.
É urgente, portanto, saber de Neruda. Para nos reconhecermos. Para entender de uma vez por todas como a burocracia atrasa, desde sempre, o destino fraterno dos subjugados.
O poeta é também uma metáfora. Inspirou, inclusive, alguns filmes muito fantasiosos. Ainda assim, mesmo sob os holofotes de Hollywood, está mais próximo de nós, homens de carne e osso, do que a maioria dos mitos.
Entre Papai Noel e Jesus Cristo, fico com Neruda – a sua vida real, o personagem e também a obra, um rasgo repleto de humanidade e lirismo:
“Quero viver num mundo sem excomungados. Não excomungarei ninguém. Não diria amanhã a esse sacerdote: “O senhor não pode batizar ninguém, porque o senhor é anticomunista.” Quero viver num mundo em que os seres sejam somente humanos, sem outros títulos a não ser este, sem serem golpeados na cabeça com uma régua, com uma palavra, com um rótulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas e em todas as gráficas. Quero que não haja mais ninguém para esperar as pessoas na porta da prefeitura para detê-las e expulsá-las. Quero que todos entrem e saiam do palácio municipal sorridentes. Não quero que ninguém fuja de gôndola, que ninguém seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a única maioria, todos, possam falar, ler, escutar, florescer”.


