Rian Santos
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Quem diria! Patrícia Polayne foi escalada para fechar o Curta-Se com chave de ouro, em praça pública, reafirmando a ambição criativa de uma aldeia ainda em vias de enxergar a si mesma. Após tanto tempo ausente dos maiores palcos, ela ressurge no miolo nativo, o umbigo do lugar, movida por uma verdade inaudita, a cara e a coragem, disposta a retomar o espaço merecido por ela e pelos seus.
Eu estava certo de jamais ouvir um segundo álbum de Patrícia Polayne. A promessa renovada ao longo dos últimos anos, década e meia, um single aqui, outro ali, exalava o calor da vela acesa diante dos crentes – um facho de luz, uma centelha, apenas, sem força para romper o véu da doutrina, os cultos e sua liturgia.
Nem fé, nem esperança. O Comboio das Ilusões (2024) veio a lume, contudo, recompensando a obstinação dos convertidos. No álbum, Polayne se afirma de novo como uma cantora impecável, além de compositora muito original.
Com apenas dois discos, ela se fez, sem tirar nem por, uma referência incontornável, uma artista exemplar da música realizada aqui e agora, às margens do Vaza Barris.
O longo intervalo transcorrido desde o lançamento de O Circo Singular, em 2009, quando Polayne renovou a linguagem musical do lugar, depunha contra a sua disposição criativa.
Os anos passavam, mas o disco anunciado aos quatro ventos não ganhava forma palpável. Eu mesmo acusei a falta com todas as letras, imperdoável, doido para morder a língua.
Mordo a língua, satisfeito, portanto. Ajoelho no milho. Após tanto tempo recolhida, por assim dizer, a artista foi tomada por uma espécie de esfinge, um desafio, uma hipótese à espera de confirmação.
Felizmente, O Comboio redime todas as dúvidas: Polayne é ainda a mesma, sob as vestes do tempo presente.
O álbum nais recente de Polayne é um registro repleto de sua personalidade autoral. Aqui, o lirismo e a teatralidade da inflexão límpida reverberam em alto e bom som, mãos dadas com a roupagem de uma sonoridade pop classuda, obra e graça do produtor Dudu Prudente. Meio bruxa, meio bicho, ela sangra. E canta as próprias feridas como ninguém.


