No rabo de um cometa

Aldir Blanc, homem que deu seu nome à lei (Fábio Motta)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
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Pouca gente sabe o nome dos compositores que mais tocam no rádio cansado do próprio coração. As canções estão lá, arquivadas no fundo da cachola, com todo o cuidado do mundo. Quem as escreveu, contudo, via de regra, não conhece os louros da fama, jamais recebe os aplausos merecidos.
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Escrever letra de música é caminho certo para uma espécie cruel de anonimato, típica do Brasil. Vejam o caso do saudoso Aldir Blanc. Letrista de mão cheia, colaborou com gente grande, foi gravado pela exigente Elis Regina. Mesmo assim, o respeitável senhor tinha as fuças desconhecidas do grande público, nunca distribuiu autógrafos na fila do pão.
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O auge criativo de Aldir Blanc se deu justamente quando a televisão estava estabelecida como uma mídia de massa, capaz de criar consensos ao atropelo da crítica especializada, alheia a toda sorte de controvérsia. O fenômeno definiu os rumos da indústria cultural, para o bem e para o mal, como observou Edgard Morin. Antes da internet, o tubo de luz tinha poderes mágicos, tanto consagrava como olvidava, a torto e direito.
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Sem as câmeras de TV, Roberto Carlos não seria coroado Rei. Sem os festivais históricos da Record, hoje uma plataforma a serviço do fundamentalismo religioso, a banda de Chico Buarque passaria em brancas nuvens. Graças à televisão, artistas se tornaram muito populares. Os eleitos da vênus platinada, sobretudo.
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Acontece que o verdadeiro gênio muitas vezes é ignorado pelos holofotes. ‘Reposta ao tempo’ não pertence a Nana Caymmi – embora a cantora tenha se apossado, com muita propriedade, dos versos de Aldir Blanc. Exemplar do que aqui já foi apontado, a capacidade de aplainar qualquer relevo de singularidade, a faixa batizou um disco da artista lançado em 1998, mas é até hoje lembrada como a música de Hilda Furacão.
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Aldir Blanc não era um Zé Ninguém, escreveu canções inesquecíveis. Também não foi só o parceiro de João Bosco. Foi, isso sim, um autor maiúsculo, com assinatura distinta. Em outro país, teria ganhado rios de dinheiro, mas deu a sorte duvidosa de nascer e trabalhar em Terra Brasílis. Não tinha um tostão no banco. Para ser internado, em plena pandemia,  a filha precisou botar a boca no mundo, denunciar o tratamento dispensado ao criador de ‘O bêbado e o equilibrista’.
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Hoje, Aldir Blanc batiza a Lei mais significativa para a cadeia produtiva da Cultura nos quatro cantos do Brasil. Mas a brava gente ainda o ignora.
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