Nordestino puro-sangue

"Arte é missão!"(Arquivo)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Ariano Suassuna carrega sobre as costas arqueadas, ainda hoje, todo o peso do imaginário nordestino. Só ele é capaz de dizer “oxente” com inflexão impecável. Nordestino raiz, puro-sangue, não há outro, mais ninguém.
Muitos, entre os nossos, correram légua tirana – só para citar Luiz Gonzaga, um dos maiores filhos da terra, coroado Rei. Mas a ideia sonhada sobre o Nordeste deriva de um embate de contorno semiótico, diferenciando os termos da Cultura Popular dos códigos aplainados pela Cultura de Massas. E Suassuna, à frente do Movimento Armorial, tomou a peleja para si.
O sotaque carregado de Suassuna ecoa nas ideias mais aguerridas e também em causos cheios de humor, eternizados em incontáveis entrevistas. Muitas destas, disponíveis no Youtube, revelam um defensor intransigente da Cultura Popular, muitas vezes equivocado, jamais um homem raivoso.
Das intempéries e carências associadas pelos incautos a seu povo e o seu lugar, Suassuna fazia graça com uma sagacidade digna do próprio João Grilo. Para os mercadores da sensibilidade coletiva, tinha uma resposta sempre pronta, na ponta da língua:
“Arte é missão, vocação e festa. Não me venham com essa história de mercado”.
Ontem, 08 de outubro, sob o pretexto de celebrar o Dia do Nordestino, os meios de comunicação e navegantes sem bússola no mar revolto das redes sociais, incluindo gente nascida e criada no chão do Nordeste, reproduziram os estereótipos mais rasos sobre o suposto homenageado, movidos pelos melhores propósitos. E, assim, resvalaram em falsidade e simplificação, pela enésima vez.
Boas intenções à parte, restam os livros e os personagens de Ariano Suassuna, a começar por ele próprio – mais densos e divertidos do que os memes reproduzidos a torto e direito nos descampados virtuais.
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