Nossas vastas solidões

Alegria e expiação (Divulgação)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Hoje, véspera do 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, percorro vastas solidões, faixa a faixa, num disco de Caetano. Refiro-me a Noites do Norte (2000), cujo esteio percussivo significa tanto quanto as próprias canções.
Aqui, o tal negro do norte, americano forte com brinco de ouro na orelha, se mostra desde a capa do álbum. Falo de africanos escravizados, rainhas de pele escura, Zumbi e até Joaquim Nabuco. À frente de tudo e de todos, contudo, reverberam os tambores. Peles, couro, cerâmica, atabaques. Em alto e bom som.
Não raro, eu menciono os pracatuns da Bahia com intenção depreciativa. Ao apontar o dedo para a indústria carnavalesca exportada pelo vizinho, contudo, sublinho, antes, o silêncio dos terreiros locais. Para bater tambor com verdadeira força é necessário, primeiro, ouvir os sopapos insistentes do próprio coração, como faz aqui Caetano. Os golpes de mãos calejadas reverberam ao longo do registro como um anúncio, uma revelação.
O rugido profundo dos oceanos, o rangido assustador dos navios negreiros e caravelas, a dor sem consolo do banzo e a revolta do açoite percorrem as noites do norte como um silvo frio, um zunido. Que se faça festa de tamanho martírio, como fazemos nós, a negrada, é prova de que a alegria mais selvagem muitas vezes nasce da expiação.
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