Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Estou por fora, nunca vi um bebê reborn. Há pouco tempo, no entanto, os debates mais acalorados, as conjecturas mais cabeçudas, examinaram o problema com todo o cuidado.
Os bonecos de silicone acalentados por adultos em pleno gozo de um juízo perfeito alimentaram cismas e teses sem fim. A brincadeira besta despertou a curiosidade dos psicanalistas de plantão, alienistas profissionais e diletantes, independentemente de banca na praça. Impulsionada por links e algoritmos, a pauta se impôs, inflada.
Bruto como um cavalo, sem conta ativa no Instagram, eu lia sobre o fenômeno tresloucado e desconfiava de suas razões. Modinha com claro recorte de classe, as Barbies em moldes de primeira infância, caríssimas, seriam um problema exclusivo de gente branca e bem nutrida, muito distante das pessoas de carne e osso. Ao menos, era o que eu pensava.
Mais uma vez, entretanto, como é frequente, eu estava enganado. Embora jamais tenha me deparado com uma genitora de plástico na fila do pão, surgiram indícios de loucura fora das bolhas infladas pelas redes sociais.
Segundo os jornais, uma mãe reborn ingressou com ação na Justiça do Trabalho contra a empresa onde batia ponto todos os dias. Ela queria acessar a licença maternidade para cuidar do boneco que, segundo a ação, “ama como uma filha”.
Li a notícia, desconfiado. Foi na Bahia, onde tudo é possível. O realismo mágico do episódio, portanto, não contraria o ceticismo encardido dos infelizes. Não necessariamente.
Leio agora sobre uma exposição no RioMar (ver nesta página) e repito: nunca vi um bebê reborn. Também nunca comi caviar. Há quem jure de pés juntos, porém, os dois existem.

