O amor no tempo do streaming

O amor, revolucionário (Divulgação)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
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Puxo pela memória e não lembro a última vez quando vi um casal de mãos dadas. Procuro no pôr do sol, no meio da rua, no bar, na praia… E nada. Aparentemente, o amor é hoje um assunto de foro íntimo, tratado entre quatro paredes, exclusivo de ambientes privados.
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Nada mais estranho. Justamente quando o mercado de ideias se esvai em simplificações as mais rasas, quando o meme ganha status de argumento e prevalece sobre o discurso elaborado, o maior de todos os clichês, o coração das hipérboles bate acanhado.
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Fui ontem ao comércio. Na multidão de consumidores não havia um só vivente tomado de paixão. O Dia dos Namorados brilhava nas vitrines. As pessoas trombavam umas nas outras, transbordando em sacolas. Ninguém se desculpava. Se gentileza fosse moeda, os lojistas no Centro de Aracaju estariam arruinados.
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Um amigo gay jamais se sentiu confortável para demonstrar carinho pelo companheiro em público. A relação dos dois é estável, dura já muitos anos. Todos os sabem casados. E, no entanto, eu mesmo nunca os vi trocando nem o mais breve dos beijos.
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A desconfiança deles tem razão objetiva. Ano passado, 291 gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTs) foram mortos em crimes motivados por ódio no Brasil, segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia. Em plena era do streaming, o amor ainda é risco de vida para muita gente, um gesto revolucionário.
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Nenhum sentimento será aqui celebrado nesta quinta-feira, 12 de junho, Dia dos Namorados. Nem hoje, nem amanhã, nem depois. Não enquanto o meu amigo não puder beijar o marido no meio da rua. Não enquanto o mundo for um lugar hostil para os apaixonados.
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