Rian Santos
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Morrissey pregou um botton no peito antes de se apresentar em um programa de televisão e só por isso foi banido da loja de discos mais antiga do mundo. O fato, em si mesmo, não teve repercussão concreta. Não foi por falta de LP nas prateleiras que o artista deixou de fazer shows e encher os bolsos já forrados de dinheiro. Mas gestos assim, essencialmente avessos ao diálogo, passam longe de insignificantes. No calor breve da fagulha arde sempre uma fogueira em potencial.
Pessoalmente, eu me reservo o direito de repudiar as recentes manifestações políticas do artista inglês, a face pública da banda The Smiths. Mas se o veganismo militante do sujeito nunca pontuou entre as razões para eu ouvir os seus discos, tampouco a lamentável guinada rumo à extrema direita me fará jogá-los fora.
A polarização é um fenômeno de abrangência mundial, sem efeito positivo conhecido. O índex de excomungados elaborado por gente fina, elegante e sincera, ao contrário, não para de crescer, marca profissionais de todos os ofícios. Outro dia, um crítico de cinema sem lampejo de imaginação, mais conhecido pela filiação partidária do que pelas ideias sobre a linguagem audiovisual, se vangloriava nas redes sociais: Acabara de cancelar um Uber. O motorista cometera a imprudência de alardear as preferências eleitorais no para-brisa do carro. Não estranha que, pouco tempo depois, por razões semelhantes, o mesmo ser humano tenha promovido um ridículo boicote à plataforma Netflix.
Cada um no seu quadrado. Para mim, as declarações políticas de Lobão, por exemplo, têm o mesmo respaldo de eventual impressão sobre a literatura de James Joyce pronunciada por um membro dos golpistas da estirpe de Bolsonaro. Não se trata de arguir a autoridade de uns e outros em determinada matéria. Mas, paixão por paixão, bastam as minhas nóias, os meus próprios ressentimentos.
A bem da verdade, o populacho se estapeia de besta. Pouco importa se progressistas ou reacionários, boiamos todos no mesmo barco furado. Como na canção de Bob Dylan, que ganhou uma versão poderosa no já recomendado disco de Morrissey: Somos, a maioria, apenas um peão no jogo “deles”.

