O caju e a sergipanidade

Fruto solitário (Divulgação)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O caju de Eurico Luiz, prestes a ser colhido no esplendor das cores mais fortes, talvez seja o primeiro fruto palpável pendurado na árvore de uma tal “sergipanidade”.
Restaurada, finalmente, após uma vida inteira sujeita ao desprezo e o relento, a escultura em forma de caju fincada na cabeceira da ponte entre a avenida Beira Mar e o bairro Coroa do Meio será entregue ao desfrute dos transeuntes em data simbólica, justamente o Dia da Sergipanidade.
Trata-se de fruto solitário. Cantada em verso e prosa, a lorota serve ao propósito dos discursos mais enfadonhos. Nada mais.
Digo e repito: Sergipano de pai e mãe, rebento da classe trabalhadora, não atinei ainda com o proveito de celebrar a tal sergipanidade.
Sergipe é uma terra sem memória. Recordo, por exemplo, um monumento singelo, modelado para lembrar os trinados do seresteiro Antonio Teles, incrustado no passeio da avenida Beira Mar. Anos atrás, sob o pretexto de uma reforma, a prefeitura de Aracaju arrancou o toco de árvore estilizado e nunca mais plantou nada no lugar.
Aqui, só o poder político e a força da grana perduram. O batismo das pontes e das ruas evocam fortunas acumuladas e brutalidade. Músicos, poetas, atores, estes são jogados em vala comum, sem coroa de flores, sem uma lápide para prolongar a beleza fulgurante de seus feitos.
Segundo Milan Kundera, “a luta do homem contra o poder é sempre uma luta da memória contra o esquecimento”. Se o escritor tcheco estiver certo, os sergipanos estão perdidos.
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