O CAMINHO DE RESISTÊNCIA E EVOLUÇÃO DO FUTEBOL FEMININO DO BRASIL (II)

* Vânia Azevedo e Thauan Santana Fonseca

Ainda que os impedimentos jamais tenham deixado de existir, resistir a todo e qualquer tipo de opressão está implícito na vida das mulheres que amam o futebol e que sempre estiveram determinados a lutar pelo direito de praticá-lo.
Estamos falando de um passado não muito distante que ainda guarda suas marcas no presente; onde futebol era “coisa” de homem, e que encontrava na imprensa esportiva uma torcida organizada capaz de vestir a camisa e ser fonte de inspiração para os seus profissionais. Diferente do futebol feminino que não gozava do apoio da sociedade, e ainda encontrava no discurso midiático seu maior inimigo. Incapaz de se opor à vontade do ditador Getúlio Vargas, fazia coro junto à opinião pública, colocando-se como forte oposição à prática do futebol feminino no Brasil.
Ainda assim, elas jamais deixaram de praticar o futebol, mesmo quando sabiam que não haveria apoio nem tampouco o reconhecimento da modalidade. Até que, na década de 1950, motivado pelo pensamento de modernização, Juscelino Kubistchek, então Presidente do Brasil, acena com a possibilidade de dar fim ao impedimento, trazendo o assunto à mesa de discussão, e lançando luz a esse apagão repressivo. Na ocasião, representantes de federações já acenavam positivamente, e as discussões progrediam, dando como certa a liberação para a prática do futebol feminino. Nesse período, houve expressivo surgimento de agremiações esportivas, com destaque o Araguari Atlético Clube, considerado o primeiro clube do Brasil a constituir uma equipe feminina, por volta de 1958, reunindo 22 jogadoras do clube em uma partida de caráter beneficente, onde nem mesmo a imprensa resistiu ao clamor popular.
Apesar do sucesso obtido em apresentações por todo Estado de Minas Gerais e em capitais como Goiânia e Salvador, a equipe foi desfeita um ano depois não resistindo a pressões dos religiosos de Minas Gerais. As apresentações foram suspensas, mas o prazer de praticar ninguém conseguiu tirar delas.
Contudo, quando se imaginava que o fim das proibições estava próximo, eis que acontece o golpe civil-militar de 31 de março de 1964 e, o que parecia ser uma realidade, torna-se um pesadelo. Nesse momento é constituído o Conselho Nacional de Desportos (CND), e com ele a criação do decreto impeditivo que só foi revogado em 1979. A ditadura, por sua vez, só contribuiu para o aumento da repressão no futebol feminino, com determinações e sanções que só potencializava a força do veto institucional, fazendo com que as equipes se desintegrassem e os sonhos das praticantes fossem levados como folhas secas sob os ventos fortes do outono.
Ainda nessa traumática década para o futebol feminino, acontecia na Inglaterra a Copa do Mundo de 1966, momento este que, embalada pela modernidade, a Federação Inglesa de Futebol, em 1969, finalmente oficializou o apoio ao futebol feminino no país do futebol. Até então, a exemplo do Brasil, alguns países da Europa (inclusive a Inglaterra), França e Alemanha estiveram inviabilizando (mesmo sem uma lei) a prática feminina do futebol. Todavia, ainda na década de 1970, com a força dos movimentos feministas, a liberação vema galope.
Já no Brasil, somente em 1979 teve fim a proibição. Contudo, elas tiveram que esperar quatro anos para que se desse a regulamentação. Essa retomada se deu timidamente, quando alguns clubes se organizaram com esse fim, dando início a um processo longo e gradativo de inserção do futebol feminino no contexto nacional. Até então essa prática obedecia a um caráter exclusivamente amadorista, liderado por alguns abnegados que nunca deixaram de acreditar nesse projeto.
No entanto, as dificuldades ainda persistem e o início da década de 1980 reserva ao futebol feminino uma realidade áspera, pois não bastava a regulamentação para garantir a efetivação dos projetos para essa modalidade. A legitimação de algumas equipes acontece, mas não garante a sobrevivência das jogadoras na modalidade, pela ausência de um calendário esportivo, uma liga, que possa sedimentar e organizar o futebol feminino brasileiro.
Somente em 1988 é oficialmente formada a primeira seleção brasileira de futebol feminino para a participação em um torneio experimental na China.

* Vânia Azevedo é professora aposentada da SEED/ Universidade Tiradentes e escritora; Thauan Santana Fonseca é mestrando em História – UFRB

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