O idoso brasileiro e o peso da sobrevivência

* Gregório José
No próximo 1º de outubro, celebra-se o Dia do Idoso. Data que, em outros países, poderia significar celebração da vida plena, descanso merecido, caminhadas pelas praças, conversas demoradas em cafés e bares. Mas no Brasil, para milhões de idosos, o dia será apenas mais um capítulo da luta diária contra boletos, remédios caros e jornadas intermináveis.
Enquanto em boa parte da Europa a aposentadoria marca o início de uma fase ativa, voltada ao lazer, à cultura e à convivência social, por aqui o cenário é bem distinto. O idoso brasileiro, mesmo aposentado, muitas vezes não pode parar de trabalhar. E não é por vocação ou teimosia: é por necessidade.
A realidade é cruel. O benefício da aposentadoria, quando existe, raramente cobre o essencial. Boa parte da renda se vai com medicamentos – indispensáveis para manter a saúde sob controle em um país onde o envelhecimento é acompanhado por doenças crônicas mal prevenidas. O que sobra, quando sobra, é usado para sustentar filhos e netos.
Sim, os filhos. No Brasil, não raro encontramos jovens de 25, 30, 35 anos que mal conseguem arcar com suas contas básicas. Energia, água, IPTU, IPVA – despesas que terminam pesando sobre os ombros dos mais velhos. O idoso, que deveria ser amparado, torna-se arrimo de família, sustentáculo de lares inteiros.
O resultado é uma contradição dolorosa: em vez de desfrutar do tempo livre que o corpo já pede, muitos seguem trabalhando em jornadas elevadas, com pouco descanso, somando à preocupação com a própria saúde o medo de não dar conta das contas.
No Brasil, o Dia do Idoso não é sinônimo de flores e homenagens: é um lembrete da precariedade que atravessa a velhice. Um chamado à reflexão sobre como tratamos aqueles que, depois de uma vida inteira de trabalho, deveriam ter conquistado o direito mais simples – o de viver seus últimos anos com dignidade.
A velhice como tragédia e espetáculo – O Brasil chegou aos 76 anos de expectativa de vida. Uma vitória? Talvez. Mas o brasileiro é um otimista patológico: acredita piamente que vai viver até os 80, mesmo que tropece em buracos de calçada, mesmo que a fila do SUS seja um purgatório. O brasileiro envelhece como quem joga na loteria: com fé.
Na Europa, a velhice é quase uma profissão. Lá o sujeito passa dos 80 como quem passa o tempo – entre vinhos, caminhadas e hospitais que funcionam. Mas cuidado: o velho europeu, apesar da longevidade, vive a melancolia de saber que sua vida já não cresce em anos. A curva parou. Envelhecem muito, mas não cada vez mais.
Na África, a velhice é um luxo. Muitos não chegam sequer aos 65. A morte vem cedo, de malária, de guerra, de fome – como uma visita íntima e cotidiana. Lá, um idoso é quase uma aparição sagrada: quem chega a velhice é sobrevivente, herói de guerra contra a vida.
Na América do Sul, vivemos no meio-termo da tragédia: o Chile e o Uruguai ostentam velhos saudáveis, quase europeus. Já na Bolívia, a velhice é breve, uma pressa. E o Brasil, sempre ambíguo, vive essa dualidade: uns chegam aos 80 correndo maratona, outros mal chegam aos 60, arrastando-se em filas intermináveis.
O que explica? Renda, saneamento, hospitais, comida no prato. É simples e cruel. Onde há Estado forte, vive-se mais. Onde a vida vale pouco, a morte é precoce. A Europa plantou sua longevidade com décadas de políticas públicas. A África ainda luta para plantar o básico. Nós, latinos, ficamos no limbo: não morremos cedo demais, nem vivemos tanto quanto sonhamos.
No fim, não é questão de contar anos. É questão de viver – ou vegetar. Não basta ter 80 anos se esses anos são passados diante de uma televisão quebrada, com as pernas frágeis e a memória em frangalhos. O que vale é ter a força de subir um ônibus sem ajuda, de andar na rua sem medo de cair.
No Brasil, os velhos invadem academias. Fazem musculação, levantam ferro, desafiam o destino. Criam uma poupança de músculos como quem cria uma conta secreta contra a morte. Talvez a verdadeira expectativa de vida não seja de 76 ou 80 anos, mas o instante em que o velho brasileiro, entre halteres e esteiras, prova ao mundo que ainda está vivo.
* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo
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