O livro do ano

Enterrado em vida, com cinco Jabutis na conta (Rogerio Cassimiro/Folhapress)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Duzentos escritores roem as unhas desde ontem, quando foram anunciados os finalistas do Prêmio Jabuti. Certamente já não dormem, cavam feridas roxas sob os próprios olhos, atormentados pela ansiedade e a insônia. Não passam de coitados. Uma vez anunciado o grande prêmio, voltam todos a mendigar centavos aos grandes e pequenos editores, famintos como antes.
A cerimônia de premiação na qual o Livro do Ano finalmente será anunciado aos quatro ventos ocorre daqui a um mês, com toda a pompa. Até lá, a glória vã da consagração acena para todos os indicados, sem fazer distinção de gênero e estilo. Todos sofrem igual. Só os mortos já não sonham com aplausos, discursos arrebatadores, filas em sessões de autógrafos, convites, congratulações.
A menção aos concorrentes defuntos evoca a memória do gaúcho João Gilberto Noll, morto para sempre desde 2017.  O escritor ostentava uma penca de Jabutis num apartamento modesto de Porto Alegre, fato que serviu de pretexto para o colega Fabrício Carpinejar acusar as humilhações do ofício. Ninguém comentava mais o trabalho de Noll. Para Carpinejar, o silêncio sobre a obra do colega operou uma espécie de assassinato.
Carpinejar estava coberto de razão, embora as suas digitais também estejam espalhadas pela cena do crime. As missas em homenagem aos esforços de um ente criativo jamais devem aguardar as formalidades do sétimo dia. Vaias e aleluias, beijos e escarros, têm mais serventia quando pronunciados no calor do momento, rosário recitado de corpo presente.
A pergunta que não quer calar: Quantos, entre os grandes da aldeia Serigy, sobrevivem no escuro, sem o papoco de uma controvérsia? Quantos passaram esquecidos, desprezados pela memória curta da opinião pública? Quantas holofotes acesos em celebrações vazias, por obra de grana e conluios diversos, em prejuízo dos valores de afirmação e identidade defendidos em páginas amareladas, para alegria e apetite das traças?
Luiz Antonio Barreto lutou a vida inteira contra moinhos de vento, como prova o triste fim do Encontro Cultural de Laranjeiras; Santo Souza virou um retrato na parede, patrono de uma Academia de Letras Encarquilhadas; Antonio Carlos Viana, acolhido pela crítica do sul maravilha, é a exceção que confirma a regra. De Chico Dantas e Maria Lúcia Dal Farra, ninguém diz uma vírgula. De Maria Cristina Gama, menos ainda. É cultivada, em Sergipe, a cultura do obituário.
Em artigo publicado no Zero Hora, pontuado por dúvidas as mais assertivas, Carpinejar se perguntou “como o nosso maior ganhador de Prêmio Jabuti, o mais prestigiado do país, vencedor de cinco edições (1981, 1994, 1997, 2004 e 2005), vivia na total clandestinidade em Porto Alegre? Como permitimos a sua desaparição pública?”, questionou, à época, coberto de razão. Em verdade, no entanto, as interrogações do articulador também chegaram tarde.
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