O nome dele é Calunga

Revelado pelo Salão dos Novos 2024, Calunga realizará individual na GAAS (Divulgação)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Sempre fui crítico do status subalterno atribuído à Galeria de Artes Álvaro Santos (GAAS) pelos gestores da sensibilidade nativa. Entre todas as evidências do descaso, a completa irrelevância do Salão dos Novos falava mais alto.
Em regra, o Salão dos Novos pouco faz, além de distribuir prêmios modestos entre artistas visuais ainda em vias de se firmar sobre as próprias pernas. Apresentado à inteligência local como uma promessa promissora, o jovem talento abocanhava seus três contos de réis e nunca mais tinha nova oportunidade de mostrar as próprias fuças. Na prática, alardeavam-se novidades que talvez nunca tenham chegado a existir.
Algo pode estar mudando na GAAS, transformando-a de novo em espaço dedicado à vanguarda da fruição e do pensamento, como em seus melhores anos. Ainda é cedo para proclamar uma tendência, mas o vencedor do Salão dos Novos mais recente realiza ali a sua primeira exposição individual.
O nome (artístico) dele é Calunga, assina um trabalho derivado de sua própria vivência nas periferias de Aracaju, aliando linguagem e enunciado. Que a sua primeira individual extrapole o marco estritamente biográfico e inaugure uma nova fase na GAAS, eis a minha esperança.
Causa libertária – O vislumbre de um papel a ser desempenhado pela GAAS tem sua razão de ser. Entendido como um ambiente vivo, um lugar de convivência e emergência de novas sensibilidades, o cubo branco amplia as suas possibilidades exponencialmente. Esta não é uma ideia nova, está ligada à vanguarda carioca dos anos 50, quando o exercício artístico brasileiro ganhou expressão mundial e registro criterioso do crítico Frederico Morais.
Frederico intuiu e dedicou todo o seu trabalho à defesa daquele que se tornaria um dos pilares desejáveis da gestão cultural nos dias correntes: a democratização do acesso e produção dos bens de natureza artística.
Para Frederico, trata-se de uma causa libertária, em sintonia com os bons ventos da emancipação humanística.
“O poeta-suicida Maiakovski afirmava que “a arte não é para a massa desde seu nascimento. Ela chega a isso ao fim de uma soma de esforços. É preciso saber organizar a compreensão”. Entendo que organizar a compreensão é criar condições para que todos possam exercitar sua liberdade criadora, treinar continuamente sua percepção. Pois a arte tem por objetivo ativar todos os sentidos do homem, criando-lhe condições para melhor captar ou mesmo antecipar os novos ambientes. Trata-se, portanto, de um problema de ordem geral, de cada indivíduo, de cada professor, crítico ou artista, das instituições culturais. É problema de Governo”.
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