* Gregório José
O Brasil descobriu que nem toda caricatura é inocente. O drama virou patrimônio nacional desde os anos 60, mas agora o roteiro mudou de cenário. Sai o estúdio iluminado da televisão, entra o gabinete refrigerado do Poder Judiciário. O Brasil que exportou mocinhas, vilões e bordões para o mundo inteiro agora vê nascer uma nova espécie de folhetim. As chamadas novelas das frutas, fabricadas por inteligência artificial, espalhadas pelas redes sociais como incêndio em capim seco e consumidas em segundos por milhões de olhos distraídos.
É a dramaturgia do algoritmo. Não tem autor conhecido, não tem elenco de carne e osso, não tem diretor gritando ação. Tem apenas uma máquina produzindo personagens com nomes caricatos, rostos infantis e histórias carregadas de agressividade, humilhação e relações tóxicas embaladas numa estética colorida que parece inocente à primeira vista.
Moranguete chora. Bananildo trai. Abacatudo agride. Tudo em vídeos curtos, ritmo acelerado e linguagem pensada para prender atenção antes que o dedo deslize para o próximo conteúdo. A fórmula é simples. Quanto mais exagero, mais clique. Quanto mais absurdo, mais entrega do algoritmo. A internet transformou o velho dramalhão brasileiro numa usina automática de engajamento.
O problema é que o verniz infantil esconde uma vitrine de violência simbólica, misoginia, humilhação e conflitos abusivos. O que parece desenho animado para criança muitas vezes funciona como entretenimento tóxico para menores. E isso finalmente chamou atenção do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, com apoio do Conanda, que decidiu mirar as plataformas e os produtores desse conteúdo.
A investigação apura possíveis violações ao chamado ECA Digital. O governo elevou recentemente a classificação indicativa desse tipo de conteúdo para maiores de 16 anos. Não por moralismo de gabinete, mas porque especialistas vêm alertando sobre os efeitos dessa enxurrada de estímulos agressivos na formação cognitiva de crianças e adolescentes.
Durante anos, a televisão brasileira aprendeu da pior forma que audiência sem responsabilidade vira problema social. Agora a discussão reaparece em outra tela, menor, portátil e infinitamente mais veloz. A diferença é que antes existia uma emissora responsável pelo que colocava no ar. Hoje existe um oceano de plataformas onde ninguém parece dono da bagunça.
As novelas das frutas são o retrato perfeito da era digital. Uma mistura de humor rasteiro, caricatura acelerada e automação de preconceitos produzida em escala industrial por inteligência artificial. Não é arte popular espontânea. É produto calculado para viralizar.
E viraliza. Viraliza porque o algoritmo não tem infância, não tem consciência e não distingue entretenimento de degradação. Ele apenas premia aquilo que prende atenção. Mesmo que seja pela brutalidade disfarçada de brincadeira.
O mais curioso é que o Brasil, especialista em transformar novela em assunto nacional, agora talvez precise decidir até onde vai a liberdade desse novo folhetim eletrônico. Porque uma coisa é certa. Nem tudo que parece desenho animado foi feito para criança. E nem toda febre da internet merece imunidade cultural só porque arranca gargalhada e clique rápido.
O Brasil das Novelas descobre que suas novas tramas talvez não terminem no último capítulo. Algumas podem acabar com condenações e banimentos.
* Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo


