O País que rejeita os seus jovens

* Gregório José

O jovem brasileiro é um ser à deriva. Não porque lhe falte sonho – sonho é o que mais tem -, mas porque o país insiste em não lhe dar chão. Desde cedo, ele aprende que há portas que nunca se abrem, salas onde nunca será chamado e palcos que só pode admirar do lado de fora.
Ainda menino, é empurrado para a escola pública – não por escolha, mas por falta dela. E ali descobre que o ensino é um campo de batalha onde se sobrevive mais do que se aprende. Os prédios caem aos pedaços, os professores resistem heroicamente e o aluno, que é o retrato da esperança, é tratado como estatística. Na escola particular, as portas estão fechadas – não por falta de capacidade, mas por falta de dinheiro. É o primeiro “não” que ele ouve da sociedade. O primeiro de muitos.
Quando cresce, vem o segundo: o “não” do mercado de trabalho. O jovem brasileiro chega com o currículo na mão, o rosto limpo, o coração cheio de boa vontade – e encontra uma fila interminável de candidatos, muitos formados em boas escolas, vindos de famílias que lhes deram tempo e preparo. A ele, que estudou à noite, trabalhou de dia e dormiu pouco, sobra a desvantagem do cansaço. Sobra também o silêncio do telefone que não toca.
Mas o país não o rejeita apenas nos estudos e no trabalho. O país o rejeita também na alegria. Nos shows, nos teatros, nos festivais, ele é o que vende salgadinhos, o que serve cerveja, o que corre atrás de clientes na calçada. O espetáculo acontece a poucos metros, mas parece a um mundo de distância. O jovem brasileiro é o público que nunca se senta na plateia.
Quando tenta reagir e sonha com uma universidade pública, vem o terceiro “não”. A concorrência é cruel. Passam os que tiveram cursinhos, apostilas, professores particulares, tempo para estudar. Aos que precisaram trabalhar, restam as faculdades particulares – caras, cansativas, muitas vezes de qualidade duvidosa. E ele vai, porque desistir não é opção. Trabalha o dobro, dorme a metade, estuda o que pode e paga o que não tem. Sai com um diploma na mão e um cansaço que parece não ter fim.
Mas o país ainda lhe deve o último golpe: o “não” da vida profissional. Sem padrinhos, sem sobrenomes importantes, sem indicações, ele se vê de novo do lado de fora – agora não mais de uma escola, nem de um show, mas do próprio futuro. Muitos acabam em empregos que nada têm a ver com a formação: o advogado que dirige aplicativo, o economista que vende plano de celular, o administrador que vira garçom. E não por falta de mérito, mas porque o Brasil é um país que premia o berço e castiga o esforço.
O jovem brasileiro é, no fundo, um sobrevivente. Ele nasce num país que o rejeita, cresce num sistema que o exclui e, ainda assim, insiste em acreditar. Há algo de heroico nisso – e talvez de trágico também. Porque nenhuma nação se sustenta quando empurra seus jovens para a margem. Nenhum país cresce quando transforma o talento em subemprego e o sonho em estatística.
O jovem brasileiro não quer piedade. Quer oportunidade. Quer ser lembrado antes de ser esquecido, ouvido antes de ser silenciado. Quer que o país olhe para ele não como problema, mas como promessa.
Enquanto isso não acontece, ele segue vendendo cerveja no portão do show, estudando à luz fraca do celular, pegando dois ônibus para o trabalho e acreditando, teimosamente, que um dia o Brasil deixará de ser o país que rejeita os seus.

* Gregório José, jornalista/radialista/filósofo

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