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O PERFUME DE BOLSONARO


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Publicado em 14 de março de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Lelê Teles

Esse é o chamado drible da vaca.
Todos aqueles que torciam por um flagrante foram surpreendidos por essa inusitada fragrância.
O minotauro – metade homem, metade gado -, percebendo que as coisas não estavam cheirando muito bem pro seu lado, decidiu lançar uma linha de perfumes.
Por essa, nem satanás esperava.
O perfumista é também um maquiador, o mesmo que anda pra cima e pra baixo a cheirar o pescoço de dona Michelle, a Lady Gada.
Ele publicita, veja você, que o perfume do homem fauno tem um toque exclusivo: uma fragrância que une força masculina e resiliência.
Percebe como a coisa é sinestésica?
O infeliz empurra uma ideologia pelo seu nariz.
Isso é genial!
O bolsonarismo, que é uma ideologia vira-lata, sempre teve cheiro de colônia.
Aquele futum azedo que é um mix de Fiúza, Constantino, Allan dos Santos e Figueiredo.
O fétido odor de fritura de hambúrguer importado.
É o cheiro que você sente quando vê o minotauro batendo continência pra bandeira estadunidense ou olhando nos olhos do Trump e dizendo: ailóvio.
Não dá pra ver uma cena dessas sem tapar o nariz.
Porém, agora, o gado bípede ganha uma identidade nacional.
O bolsonarismo, finalmente, adquire uma fragrância própria, original e refrescante.
É o cheiro do curral.
Aquela odor de mijo e merda que as vacas deixam, logo pela manhã, durante a ordenha.
Parece ruim, mas isso é bom, cara.
Esse aroma rélvico/vacum, fermentado nas estranhas das reses, fica impregnado na memória de qualquer pessoa que tenha vivido essa experiência.
Digo isso porque as férias de minha infância eram na fazenda.
Cheiro é poder.
O eflúvio de um perfume atrai, seduz, excita, desperta, acalma, relaxa…
Os felinos marcam território mijando em determinados pontos; o que fica impregnado não é a urina, é o odor do feromônio.
O cheiro do macho dominante.
Na mata, os animais farejam perigo; o olfato também é um sentido de alerta, nenhum bicho come antes de inalar o que vai comer.
Quem resiste cheirar o vinho antes de bebê-lo?
Quem não se lembra da emanação prazeirosa do feijãozinho da vovó, quem não gosta do aroma doce do cafezinho recém passado, daquela fumacinha olorosa que vem do fogão à lenha onde uma galinha caipira é refogada com pequi…
Culinária também é fragrância.
O perfume está conosco desde o surgimento da primeira civilização urbana.
Foram os sumérios que descobriram essa força poderosa.
Desde então, egípcios, árabes, asiáticos, mesoamericanos e europeus têm feito uso dessa alquimia.
Jesus recebeu três presentes quando veio ao mundo, um deles era um perfume.
Foi com perfume que Maria, irmã de Lázaro, lavou os pés do galileu.
Usamos e abusamos de bálsamos, desodorantes, águas de cheiro, loções, cremes, shampoos…
Usamos perfumes até em funerais!
Toda religião faz uso de incensos e defumações, toda beata sabe que há um inconfundível cheiro de catedrais.
Nas entranhas das florestas, pajés e majés maceram folhas, ervas, raízes e queimam resinas para incensar seus rituais místicos.
Nas casas de santo, exalam aromas de dendês, pipocas e alfazemas.
O perfume eleva o espírito.
As flores de plástico não têm graça, não por serem artificiais, mas por não terem odor.
É o odor que define a flor, mais que a sua cor.
Bolsonaro acertou em cheio.
Se não me engano, lançaram também uma bota com a marca de Bolsonaro.
O gado bípede já tem uma bandeira, uma camiseta, uma bota e um perfume.
Eles têm uma indumentária.
Até os isentões têm a sua marca: uma camisa polo, um pulôver lilás no ombro, um sapatênis, um relojão, um copo stanley…
E nós, o que temos.
Que símbolos exteriores nos ligam?
A gente, a canhotagem, continua negando a realidade e acusando os outros de negacionistas.
Achamos que tudo o que é novo é perfumaria.
O progressismo ainda enche a boca pra dizer: “sem nem que é essa influencer”.
Aí é um tal de xingar o Felipe Neto, de não reconhecer e não trazer pra perto de nós uns caras foda como o chavoso da USP.
De não reconhecer que a rinha que o galo tá entrando de esporada com os estregadores tá à margem do progressismo.
Que a gente tinha que tá fortalecendo o Renato Freitas da mesma forma que a direita fortalece o Nikolas Ferreira.
Que a gente tem que perceber que as nossas lideranças envelheceram e que não podem, e nem devem, ser substituídas por uma nova geração de machos brancos de classe média.
Porque isso é ridículo.
Enfim, é desalentador perceber que não aprendemos nada desde aquele forte, vigoroso, verdadeiro, corajoso discurso do Mano Brown, no palanque do Haddad em 2018, admitindo a derrota pro minotauro.
E progressimo acadêmico e burguês foi obrigado a ouvir aquelas verdades, abaixar a cabeça e engolir seco.
E aquela não era uma voz progressista, era uma voz do hip hop, um movimento revolucionário, de quebrada, que cresceu, também, à margem do progressismo.
Nós vamos tomar um pau nas prefeituras esse ano.
Na maioria das capitais, nossos(as) candidatos(as) são como aquele grenouille, do Patrick Suskind: não fede e nem cheira.
“O que não tem cheiro não tem essência.”
Enquanto isso, bíblia nos sovacos, os irmãos defumam as cadeias com Bolsonaro, irmãs borrifam Bolsonaro nas favelas, nas escolas e nos quartéis, irmãos aspergem essências de Bolsonaro nas igrejas…
Pra você que achou graça do anúncio do perfume do Bolsonaro, vou finalizar com essa.
Em 1989 eu era um molecote e já era punk.
E tava encantado com a ideia de que um metalúrgico nordestino, barbudo e semialfabetizado, poderia vencer um macho branco e rico e se tornar presidente.
O que eu poderia fazer pra ajudar?
Juntei com três parceiros e montamos uma pequena oficina de serigrafia.
Confeccionávamos camisetas vermelhas com estrelas brancas e brancas com estrelas vermelhas.
não deu pra quem quis.
Aumentamos a produção, quatro molecotes, e enchemos a quebrada com camisas do petê.
Com o crescimento da demanda, nos juntamos ao Zé Alves, funcionário do Banco do Brasil (hoje aposentado) e quadruplicamos a produção.
Acabamos atraindo um grande número de funcionários/voluntários e produzimos todos os bandeirões vermelhos que inundaram as ruas de Brasilia naquele período.
Além de botons, adesivos, melecas, toucas, o diabo.
Hoje, a turma não consegue nem produzir meme.
E torce o nariz pras novidades e pros novos rostos.
É preciso sentir o cheiro da relva fresca, dos novos ares, da renovação.
Tá todo mundo precisando de um banho de cheiro.
É tempo de perfurmar-se.
Palavra da salvação.

* Lelê Teles, jornalista, publicitário e roteirista

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