O que é fé? ( II )

 

* Raymundo Mello
(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)
Continuo a publicação do ‘úl-
timo escrito de natureza re-
ligiosa’ produzido por meu pai, o ‘Memorialista Raymundo Mello’. Além de registar a ‘memória’ referente ao trabalho por ele exercido no âmbito religioso, desejo proporcionar ao ‘seu’ público leitor reflexões a partir do que nutria a sua vida espiritual. Posso assegurar que ele vivia esta realidade que expõe no texto, principalmente, de forma muito intensa, nos seus últimos anos de vida terrena.
Segue a continuação do texto aqui publicado na edição de terça-feira passada (05/11). Boa leitura!
"(…) continuamos refletindo sobre a Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 8, verso 26. Vejamos: "Quanto às tentações (…), a respeito das quais pedimos "não nos deixeis cair em tentação", não sabemos quais as que nos levariam realmente ao mal, ao perigo grave. Algumas nos poderiam ser proveitosas. "Basta a ti a minha graça, porque o meu poder se faz sentir melhor na fraqueza" (2Cor 12,9). E quanto às ocasiões perigosas de pecado, a respeito das quais pedimos "mas livrai-nos do mal", não sabemos quais realmente sejam as que nos causarão danos, enquanto outras nos dariam, talvez, maior proveito para esta vida e para a vida futura. "Vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem" (Gn 50,20).
Disso se vê que, embora o próprio Cristo nos tenha dado a forma perfeita da oração, todavia, em muitas coisas "não sabemos o que pedir", porque, nos casos particulares, "o caminho do homem está escondido e Deus o circunda de trevas" (Jó 3,23). O mesmo se pode dizer sobre o modo da oração, já que não sabemos orar como convém. Em geral, sim, "quem pede, peça com fé, sem nada hesitar" (Tg 1,6). Porém, nunca sabemos se estamos com a medida de fé indispensável, e com a humildade, e com a obediência necessárias diante de Deus. "O homem tem um coração malvado e incerto: quem o poderá conhecer? (Jr 17,9). Quem, pois, ajudará a tua fraqueza, a tua enfermidade, nos dois sentidos? "O Espírito sustenta a nossa fraqueza".
Por que Cristo nos deu uma fórmula de oração geral e não mais especificada? Porque queria deixar uma norma de oração comum a todos. Mas Ele assegurou que quando tivesse subido ao céu, enviaria de lá, quem, em seu nome, sugerisse tudo o que fosse preciso mais elucidar. Enviaria o Espírito Santo. "Disse-vos essas coisas, estando no meio de vós; mas, o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai mandará em meu nome, vos ensinará todas as coisas" (Jo 14,15-26). O Espírito Santo vem, pois, expressamente, para completar em cada um de nós os belíssimos ensinamentos de Cristo. Isso quis o mesmo Cristo, para mostrar-nos que, para socorrer à nossa ignorância na oração, que é a nossa pior enfermidade, não é suficiente qualquer sabedoria, mas faz-se mister o Amor. "O Espírito Santo sustenta a nossa fraqueza". Além disso, Cristo foi dado ao mundo pelo Pai como Mestre de todos. "Eu o dei como Mestre das nações" (Is 55,4). O Espírito Santo nos é enviado como um gentil repetidor para que compreendamos as grandes lições de Jesus Cristo. "Lembrar-vos-á tudo o que eu vos disse" (Jo 14, 26).
Portanto, ao Espírito Santo não só compete adaptá-las à capacidade de cada um de nós em particular, mas às necessidades de cada um.
[Mas], como o Espírito Santo desenvolve em nós essa sua ação? De que forma o Espírito Santo nos ajuda a orar? Ajuda-nos com a sua assistência especial, quer a respeito da substância da oração, quer a respeito do modo.
Quanto à substância, assiste-nos dando veementíssimos impulsos para que peçamos coisas que realmente são para nossa vantagem, de modo que apresentemos a Deus os pedidos que são apropriados a nós.
Quanto ao modo, assiste-nos infundindo-nos aquela fé, reverência, resignação à vontade de Deus, e outros afetos que podemos antes experimentar do que exprimir. Por isso se diz que "o Espírito Santo pede por nós com gemidos inexplicáveis".
Diz-se que o Espírito Santo "pede", mas não é antes verdade que "nos faz pedir"? Sim. Mas não se diz que o Espírito Santo fala nos profetas, nos pregadores, nos mártires? E por que se diz? Porque os fez ou faz falar. "Não sois vós que falais, mas o Espírito do vosso Pai que fala em vós" (Mt 10,20). Como se diz que "fala" porque faz falar, assim se diz que pede, porque faz pedir.
Mas, é preciso pensar na enorme diferença que havia quando os profetas falavam por sua conta e quando falavam sob a inspiração do Espírito Santo e que há ainda quando oramos sós, de maneira quase morta e quando oramos vivificados pelo Espírito Santo, que intervém e "pede com gemidos inexplicáveis": como são diferentes o fervor, os sentimentos, os afetos! Não se pode facilmente explicar: são inexplicáveis.
Feliz de cada um de nós se já experimentou, ao menos em parte, esses três itens – fervor, sentimentos e afetos. Mas se ainda não experimentou, pede ao amabilíssimo Espírito que a ti os dê, para teres esta feliz experiência.
Mas o sentido do termo "ora", não só inclui o fato que "nos faz pedir", mas indica também que realmente o Espírito "pede" por nós, como advogado, como Paráclito, que está dentro de nós, falando por via do amor.
Mas, como fala? Em uma linguagem a nós oculta, que se exprime justamente "com gemidos inexplicáveis", porque pedimos "pra nós" coisas que nós, não nos conhecendo bem, ou desviados por falsas visões, pediremos, talvez, "contra nós". Já notamos que muitas coisas que pedimos com clareza e com insistência não nos foram concedidas e sim, antes nos foram dadas coisas exatamente contrárias? A quem devemos isto? Talvez, muitas vezes, ao próprio Espírito Santo, que, mais profundamente, pediu para nós as coisas que eram-nos mais úteis.
Se queremos saber mais em particular quando isto acontece, observemos: às vezes pedimos uma coisa com muita insistência e ao mesmo tempo temos uma profunda resignação à vontade divina, mesmo se não nos é muito clara, em virtude da qual, desejamos realmente mais, aquilo que Deus dispuser de nós do que aquilo que estamos pedindo.
Este nosso desejo ou disposição é uma linguagem ocultíssima do Espírito Santo que fala em nós, linguagem que procede do verdadeiro amor e que alcança a conformidade à vontade de Deus que, no caso, é contrária à oração explícita sobre a qual estamos insistindo. Vejamos o exemplo de Cristo, do qual está escrito em Hebreus 5,7: "Foi ouvido pela sua reverência (ou piedade)". Diante do amargo cálice da paixão iminente, que estava por acontecer, a forte repugnância da natureza inclinou-o a pedir "que passasse dele o cálice".
Todavia, a sua reverência à vontade de Deus levou-o mais profundamente a aceitar: "foi ouvido pela sua piedade". Esta diferença houve no Senhor e Ele a descobriu em termos claríssimos: "Porém, não se faça como eu quero, mas sim como tu queres" (Mt 26,39).
Muitas vezes nós não descobrimos, mas, se realmente ela existe, no íntimo do nosso espírito precisamos descobri-la. É a manifestação do Espírito do Senhor que "pede para nós com gemidos inexplicáveis".
Assim, nós mesmos somos ouvidos, não segundo o espírito inferior com o qual pedimos, mas segundo o Espírito superior em virtude do qual desejamos só o que nos convém. Em Rm 8,27 está escrito: "Aquele que perscruta os corações sabe o que deseja ardentemente o Espírito, porque pede em favor dos Santos, segundo Deus" e não segundo o homem, como, às vezes, queremos fazer.
Se é assim, vejamos quanto importa a resignação perfeita à vontade de Deus, porque Ele faz com que sempre sejamos ouvidos, segundo o que nos é mais útil.
(…) procure as citações em sua Bíblia e, sem pressa, vá degustando essas singelas reflexões, que continuarão [na próxima edição], com a graça de Deus".
* * *
E.T. – Errata: na edição anterior, onde se lê "todas semanas" (4.º parágrafo – linhas 9 e 10), leia-se "todas as semanas".
* Raymundo Mello é Memorialista
raymundopmello@yahoo.com.br

* Raymundo Mello

(publicação de Raymundinho Mello, seu filho)

Continuo a publicação do ‘úl- timo escrito de natureza re- ligiosa’ produzido por meu pai, o ‘Memorialista Raymundo Mello’. Além de registar a ‘memória’ referente ao trabalho por ele exercido no âmbito religioso, desejo proporcionar ao ‘seu’ público leitor reflexões a partir do que nutria a sua vida espiritual. Posso assegurar que ele vivia esta realidade que expõe no texto, principalmente, de forma muito intensa, nos seus últimos anos de vida terrena.
Segue a continuação do texto aqui publicado na edição de terça-feira passada (05/11). Boa leitura!
"(…) continuamos refletindo sobre a Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 8, verso 26. Vejamos: "Quanto às tentações (…), a respeito das quais pedimos "não nos deixeis cair em tentação", não sabemos quais as que nos levariam realmente ao mal, ao perigo grave. Algumas nos poderiam ser proveitosas. "Basta a ti a minha graça, porque o meu poder se faz sentir melhor na fraqueza" (2Cor 12,9). E quanto às ocasiões perigosas de pecado, a respeito das quais pedimos "mas livrai-nos do mal", não sabemos quais realmente sejam as que nos causarão danos, enquanto outras nos dariam, talvez, maior proveito para esta vida e para a vida futura. "Vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem" (Gn 50,20).
Disso se vê que, embora o próprio Cristo nos tenha dado a forma perfeita da oração, todavia, em muitas coisas "não sabemos o que pedir", porque, nos casos particulares, "o caminho do homem está escondido e Deus o circunda de trevas" (Jó 3,23). O mesmo se pode dizer sobre o modo da oração, já que não sabemos orar como convém. Em geral, sim, "quem pede, peça com fé, sem nada hesitar" (Tg 1,6). Porém, nunca sabemos se estamos com a medida de fé indispensável, e com a humildade, e com a obediência necessárias diante de Deus. "O homem tem um coração malvado e incerto: quem o poderá conhecer? (Jr 17,9). Quem, pois, ajudará a tua fraqueza, a tua enfermidade, nos dois sentidos? "O Espírito sustenta a nossa fraqueza".
Por que Cristo nos deu uma fórmula de oração geral e não mais especificada? Porque queria deixar uma norma de oração comum a todos. Mas Ele assegurou que quando tivesse subido ao céu, enviaria de lá, quem, em seu nome, sugerisse tudo o que fosse preciso mais elucidar. Enviaria o Espírito Santo. "Disse-vos essas coisas, estando no meio de vós; mas, o Consolador, o Espírito Santo, que o Pai mandará em meu nome, vos ensinará todas as coisas" (Jo 14,15-26). O Espírito Santo vem, pois, expressamente, para completar em cada um de nós os belíssimos ensinamentos de Cristo. Isso quis o mesmo Cristo, para mostrar-nos que, para socorrer à nossa ignorância na oração, que é a nossa pior enfermidade, não é suficiente qualquer sabedoria, mas faz-se mister o Amor. "O Espírito Santo sustenta a nossa fraqueza". Além disso, Cristo foi dado ao mundo pelo Pai como Mestre de todos. "Eu o dei como Mestre das nações" (Is 55,4). O Espírito Santo nos é enviado como um gentil repetidor para que compreendamos as grandes lições de Jesus Cristo. "Lembrar-vos-á tudo o que eu vos disse" (Jo 14, 26).
Portanto, ao Espírito Santo não só compete adaptá-las à capacidade de cada um de nós em particular, mas às necessidades de cada um.
[Mas], como o Espírito Santo desenvolve em nós essa sua ação? De que forma o Espírito Santo nos ajuda a orar? Ajuda-nos com a sua assistência especial, quer a respeito da substância da oração, quer a respeito do modo.
Quanto à substância, assiste-nos dando veementíssimos impulsos para que peçamos coisas que realmente são para nossa vantagem, de modo que apresentemos a Deus os pedidos que são apropriados a nós.
Quanto ao modo, assiste-nos infundindo-nos aquela fé, reverência, resignação à vontade de Deus, e outros afetos que podemos antes experimentar do que exprimir. Por isso se diz que "o Espírito Santo pede por nós com gemidos inexplicáveis".
Diz-se que o Espírito Santo "pede", mas não é antes verdade que "nos faz pedir"? Sim. Mas não se diz que o Espírito Santo fala nos profetas, nos pregadores, nos mártires? E por que se diz? Porque os fez ou faz falar. "Não sois vós que falais, mas o Espírito do vosso Pai que fala em vós" (Mt 10,20). Como se diz que "fala" porque faz falar, assim se diz que pede, porque faz pedir.
Mas, é preciso pensar na enorme diferença que havia quando os profetas falavam por sua conta e quando falavam sob a inspiração do Espírito Santo e que há ainda quando oramos sós, de maneira quase morta e quando oramos vivificados pelo Espírito Santo, que intervém e "pede com gemidos inexplicáveis": como são diferentes o fervor, os sentimentos, os afetos! Não se pode facilmente explicar: são inexplicáveis.
Feliz de cada um de nós se já experimentou, ao menos em parte, esses três itens – fervor, sentimentos e afetos. Mas se ainda não experimentou, pede ao amabilíssimo Espírito que a ti os dê, para teres esta feliz experiência.
Mas o sentido do termo "ora", não só inclui o fato que "nos faz pedir", mas indica também que realmente o Espírito "pede" por nós, como advogado, como Paráclito, que está dentro de nós, falando por via do amor.
Mas, como fala? Em uma linguagem a nós oculta, que se exprime justamente "com gemidos inexplicáveis", porque pedimos "pra nós" coisas que nós, não nos conhecendo bem, ou desviados por falsas visões, pediremos, talvez, "contra nós". Já notamos que muitas coisas que pedimos com clareza e com insistência não nos foram concedidas e sim, antes nos foram dadas coisas exatamente contrárias? A quem devemos isto? Talvez, muitas vezes, ao próprio Espírito Santo, que, mais profundamente, pediu para nós as coisas que eram-nos mais úteis.
Se queremos saber mais em particular quando isto acontece, observemos: às vezes pedimos uma coisa com muita insistência e ao mesmo tempo temos uma profunda resignação à vontade divina, mesmo se não nos é muito clara, em virtude da qual, desejamos realmente mais, aquilo que Deus dispuser de nós do que aquilo que estamos pedindo.
Este nosso desejo ou disposição é uma linguagem ocultíssima do Espírito Santo que fala em nós, linguagem que procede do verdadeiro amor e que alcança a conformidade à vontade de Deus que, no caso, é contrária à oração explícita sobre a qual estamos insistindo. Vejamos o exemplo de Cristo, do qual está escrito em Hebreus 5,7: "Foi ouvido pela sua reverência (ou piedade)". Diante do amargo cálice da paixão iminente, que estava por acontecer, a forte repugnância da natureza inclinou-o a pedir "que passasse dele o cálice".
Todavia, a sua reverência à vontade de Deus levou-o mais profundamente a aceitar: "foi ouvido pela sua piedade". Esta diferença houve no Senhor e Ele a descobriu em termos claríssimos: "Porém, não se faça como eu quero, mas sim como tu queres" (Mt 26,39).
Muitas vezes nós não descobrimos, mas, se realmente ela existe, no íntimo do nosso espírito precisamos descobri-la. É a manifestação do Espírito do Senhor que "pede para nós com gemidos inexplicáveis".
Assim, nós mesmos somos ouvidos, não segundo o espírito inferior com o qual pedimos, mas segundo o Espírito superior em virtude do qual desejamos só o que nos convém. Em Rm 8,27 está escrito: "Aquele que perscruta os corações sabe o que deseja ardentemente o Espírito, porque pede em favor dos Santos, segundo Deus" e não segundo o homem, como, às vezes, queremos fazer.
Se é assim, vejamos quanto importa a resignação perfeita à vontade de Deus, porque Ele faz com que sempre sejamos ouvidos, segundo o que nos é mais útil.
(…) procure as citações em sua Bíblia e, sem pressa, vá degustando essas singelas reflexões, que continuarão [na próxima edição], com a graça de Deus".

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E.T. – Errata: na edição anterior, onde se lê "todas semanas" (4.º parágrafo – linhas 9 e 10), leia-se "todas as semanas".

* Raymundo Mello é Memorialistaraymundopmello@yahoo.com.br

 

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