Afonso Nascimento
Este texto abreviado tem por objetivo abordar o Setor Militar do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no Exército em Sergipe – também conhecido como Setormil e Antimil. É um assunto sensível. Com efeito, os militares não gostam que se fale de militares comunistas, por eles considerados “traidores da farda” ou “traidores da pátria”, o que também desagrada as famílias de tais militares – que preferem que o assunto não seja abordado – considerando que é socialmente forte o anticomunismo na sociedade brasileira. Ainda hoje, uma forma de desqualificar uma pessoa é chamá-la de “comunista”, pouco importando o que essa palavra dizer.
O preconceito contra comunistas se tornou especialmente forte desde que foi difundida a falsa informação segundo a qual militares comunistas teriam matado colegas castrenses que dormiam, em 1935, durante a Insurreição Comunista (chamada pejorativamente de “Intentona” Comunista) nas cidades de Natal, Recife e Rio de Janeiro. Isso foi agravado com mais de quarenta anos de Guerra Fria entre capitalistas e comunistas. Para além disso, existem pessoas, civis e militares, que pensam que falar sobre militares comunistas é uma espécie de “delação” e, daí, recusam os convites para falar do assunto cuja memória será apagada com suas mortes.
Paralelamente a isso, surgiu nos meios acadêmicos uma área especializada sobre “a esquerda armada” ou “esquerda militar” que se presta, por sua vez, a confusões para pessoas comuns. Quando os conceitos são mencionados, elas pensam rapidamente que aquilo de que se fala é da esquerda que pegou em armas para combater o regime militar (como o capitão Lamarca e outros.) Uma coisa não tem nada a ver com a outra!
Esquerda armada (ou esquerda militar) é um conceito para designar grupos ou facções de homens que escolhem profissões militares, as quais, como se sabe, que requerem o uso de armas. Os membros desses grupos seguem ideologias de esquerda (comunistas, socialistas, anarquistas, social-democratas, etc.). Essa área de estudos e de pesquisas foi aberta por João Quartim de Moraes, autor do livro intitulado “A esquerda militar no Brasil” (MORAES, João Quartim de Moraes. A esquerda militar no Brasil: da Coluna à Comuna. São Paulo: Siciliano, 1994.).
A partir desse trabalho seminal surgiram outros, sendo talvez o mais importante aquele escrito por Paulo Ribeiro da Cunha chamado “Militares e Militantes” (CUNHA, Paulo Ribeiro da Cunha. Militares e Militantes. Uma relação dialeticamente conflituosa. 2ª.Ed. São Paulo: Editora Unesp, 2020.). Avançando um pouco mais, preciso dizer que o Setor Militar não é senão o seguinte: uma célula ou um conjunto de células de militares comunistas no interior das Forças Armadas (Exército, Marinha, Aeronáutica e Polícia Militar), distribuídas ao longo da história do Brasil. Neste texto, estou interessado nos Setores Militares do PCB no Exército brasileiro. Devo acrescentar que podem existir setores militares ligados a homens políticos de como Leonel Brizola e de direita como Carlos Lacerda. Somando tudo e passando a régua em termos nacionais, o Setor Militar do PCB foi fundado em 1929 e extinto em 1992, com o fim dessa organização política persistiu quase sempre na clandestinidade. Tratar do Setor Militar do PCB no Exército em Sergipe remete o pesquisador a se debruçar ao mesmo tempo sobre a história do Exército, do PCB e do Setor Militar.
De acordo com Maynard (MAYNARD, Andreza Santos Cruz. A caserna em polvorosa: a revolta de 1924 em Sergipe. Recife: dissertação de mestrado em História da UFPE, 2008.), o Exército em Sergipe teve sua origem registrada em 1921. Até onde sei, essa dissertação é o único trabalho acadêmico que trata do 28 B.C., ao qual a autora dedica algumas páginas. As instituições do Exército (quartel do 28 Batalhão de Caçadores, Tiros de Guerra e 19ª. Circunscrição de Recrutamento) em Sergipe sofreram mudanças ao longo de sua história e são loci permanentes do Estado no Brasil até hoje. Antes de ser deslocada para o bairro 18 do Forte, a primeira guarnição ficava onde é hoje a praça General Valadão, no lugar do antigo Hotel Palace.
Por outro lado, nada se sabe sobre a fundação do PCB em Sergipe, mas se pode seguramente afirmar que o ano de sua emergência não foi 1922, como as pessoas tendem a pensar. O PCB sergipano não nasceu ao mesmo tempo no Rio de Janeiro (1922). Uma pista que pode ser seguida foi fornecida por Etodea Teles Menezes. Com efeito, essa filha do major João Teles, em entrevista para a criação de perfil biográfico de seu pai, declarou que Júlio Bispo dos Santos teria sido fundador da primeira célula do PCB em Sergipe. Para o caso de não se tratar de um homônimo, o nome desse operário aparece entre os signatários do manifesto de ferroviários da Leste Brasileiro dirigido a Getúlio Vargas, datado de 1945, exigindo que seja feita uma assembleia constituinte (Cf. Tribuna Popular, de outubro de 1945. O título da matéria é “Clamam pela Constituinte.Operários de Aracaju”).
Quanto ao Setor Militar do PCB no Exército, também não se sabe quando foi fundado. Só existe o registro de seu funcionamento a partir da volta a Sergipe do major João Teles em 1947, quando requereu e conseguiu a sua reserva remunerada. Sabe-se que esse antigo militar, que começou sua carreira militar como praça em Aracaju, participou do Setor Militar do Exército em Ilhéus, na Bahia. Assim, no texto que se seguirá, tratarei apenas do setor militar que começa com o major e termina com sua morte, em 1981. De acordo com Wellington Mangueira, o setor militar do PCB teria sido então chefiado por Agliberto Vieira de Azevedo, velho comunista nascido em Rosário do Catete e amigo do major falecido.
O meu interesse está centrado na trajetória e no trabalho político do major João Teles na direção do Setor Militar do PCB. Ele foi um militar que não frequentou academia militar para a formação de oficiais e não tomou parte de missões ou expedições ao estrangeiro. Devido ao seu currículo militar e político (era um major do Exército e um ex-prefeito de Propriá nomeado por Augusto Maynard), ele teve atuação, ao mesmo tempo, no Setor Militar, no Exército e no PCB. Cumpriu a função de mediador entre essas três organizações com suas peculiaridades. Enquanto comunista e militar, não foi herói, nem traidor.
O major João Teles foi um militar que tomou partido em relação às contradições das classes sociais na sociedade sergipana e brasileira, bem como em relação à inserção do país no contexto internacional dominado pela Guerra Fria entre capitalistas e comunistas. Compreendeu o seu lugar na dominação dos grupos subalternos dentro e fora da caserna, percebeu que os militares geralmente reprimem os grupos considerados de esquerda e, enfim, achou que poderia fazer a diferença escolhendo se posicionar ao lado de “los de abajo” organizados em grupos, sindicatos e associações. Viveu tempos em que homens de esquerda acreditavam que era possível fazer revoluções.
Afonso Nascimento, professor aposentado de Direito da UFS.


