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O suicídio dos presidentes


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Publicado em 13 de março de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Emir Sader

O conhecido jornalista brasileiro Flávio Tavares, sobre as relações entre o Brasil e o Chile, que denominou “O dia que Getúlio matou Allende”. Ele já havia escrito um outro livro que explorava temas similares – “Memórias do Esquecimento”.
Naquele livro, Flavio inclui uma circunstância impressionante. Ele, um jovem ainda, está no saguão de um hotel de Pequim, em agosto de 1954, quanto estava em um congresso, lhe aparece Salvador Allende, que lhe diz: “Está aqui um cable que seu presidente cometeu um suicídio.” E Allende perguntou a Flavio: “Como pode um presidente se suicidar?”
O Chile é um país que já tinha, há tempos, uma tradição de suicídios. Entre tantos outros, Balmaceda e Recabarren, dois grandes líderes políticos. José Manuel Emiliano Balmaceda, ex-presidente do Chile, na segunda metade do século XIX, tirado do poder por um golpe, ficou refugiado na embaixada da Argentina. Quando terminou seu mandato, se suicidou, ainda na própria embaixada.
Luis Emilio Recabarren, um dos primeiros líderes marxistas na América Latina, fundador dos partidos comunistas do Chile e da Argentina, depois de desencantos por desencontros políticos, também termina se suicidando.
Houve outros casos, mas o mais destacado, claro, terminou sendo o de Salvador Allende, aquele mesmo que, vinte anos antes, tinha tido aquela reação diante do suicídio de Getulio Vargas.
Sua morte foi ainda, por um tempo, questionada, até que sua companheira – a Payita – que estava com ele naquele momento, relatou tudo e confirmo que tinha se tratado realmente de um suicídio.
Aos olhos desse acontecimento, o texto ganha novas cores. O espanto do Chicho diante do suicídio do presidente brasileiro pode ser revisto diante do suicídio do próprio presidente chileno. Que se colocava como alternativa Allende? Qual o significado que tratou de dar a seu gesto?
Sabemos que Pinochet e sua gente haviam proposto a Allende a saída das mulheres do Palácio da Moneda e do próprio Allende, a quem teria sido oferecida a saída do país. Allende promoveu a saída das mulheres e ficou com um pessoal mais próximo e fiel a ele.
Antes disso, Miguel Enriquez, em nome do Mir, tinha oferecido, através de Tati, a filha de Allende, que ele fosse retirado da Moneda e levado a uma poblacion – um bairro popular de Santiago – onde se reivindicaria como governo legal do Chile, buscando o apoio de outros governos.
Allende rejeitou a oferta, dizendo que ali terminava sua trajetória, que ele daria o combate até o fim e que reiterou o que havia afirmado antes: de que só sairia do Palácio da Moneda morto ou ao final do seu mandato. E mandou a mensagem de que cabia às novas gerações reabrir as grandes alamedas, que levariam ao futuro democrático do Chile.

* Colunista do 247, Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

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