O TRÂNSITO E A INSTABILIDADE EMOCIONAL DO ARACAJUANO

Vânia Azevedo

Já se foi o tempo em que sair às ruas de Aracaju, às primeiras horas da manhã, era garantia de um treino tranquilo ou uma caminhada sem sobressaltos; sem o risco deliberado de ser atropelado ou a desagradável surpresa de ser assaltado – agravante que ganha musculatura na esteira do desemprego que assola o país, deixando na população uma suposta sensação de insegurançaque se perde ao vento a cada ocorrência diária.
É sempre uma aventura das mais ousadas ignorar os riscos a que o indivíduo se expõecada vez que vai às ruas, seja como pedestre ou motorista, pois vivemos o momento em que a intolerância não tem ficado em casa quando as pessoas resolvem sair. E o que é mais preocupante: o trânsito vira campo de batalha e o transporte arma de guerra.Incapazes de administrar suas frustrações eos problemas existenciais que se acumulam, osmotoristas cedem às provocações que predominam no eletrizanteambiente que o trânsito de uma cidade grande favorece, constituindo-se um ringue a céu aberto, além de território neutro para as pessoas deixaremexcederseus piores instintos.(E ai de quem ouse contrariá-las!)
Se a opção é pedalar, o número de adeptos ganha cada vez mais volume na busca de encontrar na atividade física o seu divã; senão, encontrar o antídoto eficiente para neutralizar a ansiedade que corrói sem piedade. E, mesmo consciente dos riscos que os cercam, encaram o desafio de serem surpreendidos no trânsito por motoristas e motoqueiros, nem sempre simpáticos a sua causa, por jugarem-se transgredidos no espaço que, equivocadamente, acreditam ter prioridade.
Porém, nada é mais questionável que as tribos de condutores de motos (que atuam freneticamente impulsionados pela era do delivery) apercorrerem as ruas da cidade em atitude desafiadora e hostil, como se alunos de uma capacitação tresloucada, onde tira as melhores notas aquele que pior pontuar a disciplina “educação no trânsito”.O modus operandi desses indivíduos éinegavelmente similar: pressionados pelo binômio rapidez e pontualidade, e unindo a necessidade de garantir o sustento à ousadia de desafiar o risco, agem de maneira irresponsável e imprudente, ignorando os perigos a que se expõem (e expõem aos demais),enquanto desconsideram as consequências de manobrasinconsequentes e insanas, aumentando substancialmente as estatísticas deinvalidez (tornando-se a aposentadoria que gera maior despesa ao INSS) comprovadamente, em sua maioria, de pessoas jovens.Um custo que não cessa quando o indivíduo deixa o hospital, visto que, quando não fica inválido, passa por um longo período de reabilitação até voltar à ativa, gerando um custo altíssimo aos cofres públicos.
A consulta ao celular (em pleno trânsito) é uma constante em sua atividade, e já se tornou gatilho para o crescente número de ocorrências;quando até o atravessar na faixa do pedestre se torna uma tarefa perigosa que requer concentração e paciência, ficando nítido em alguns episódios, o desapreçoque algunsmotoristas e condutores de moto(inúmeras vezes absorvidos pelos problemas emocionais)parecem nutrir pelo pedestre, só é compatível à maneira como a justiça conduz os casos de acidentes no trânsito. Descaso este que pareceincentivaresses indivíduos que desconhecem o custo que representam os acidentesdiários para os cofres públicos, comutilização substancial de leitos (geralmente em tratamentos longos), que poderiam ser utilizados no acolhimento de outras enfermidades; onerando dessa maneira o sistema público de saúde (SUS).
Foi assimque tive o meu carro atingido na traseira por uma moto, quando o condutor confessou a distração enquanto checava o celular em circunstância de trabalho.(Uma cena que,por si só,penalizou o próprio infrator, socorrido às pressas por seus pares, identificados por suas peculiares caixas coloridas nas costas). Demonstrando mais preocupação com a moto do que consigo mesmo, o dublê de si mesmo levantou-se rapidamente e, desconsiderando os ferimentos, lutou bravamente para ressuscitar sua parceira (a moto).Só então deixei o local, tranquilae aliviada (já me acostumando comcenas como essa), por não constatar ferimentos graves no condutor aloprado; deixando com o socorrista em questão a incumbênciade prestar os primeiros socorros a sua parceira de aventuras. Sobretudo tentando estancar o líquido viscoso(mais em alta que um litro de sangue) das veias pulsantes de sua máquina mortífera.

Vânia Azevedo é professora.

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