* Gregório José
Você já se perguntou qual a sensação de se sentir invisível? Para muitos profissionais essenciais, essa sensação se faz presente quase o tempo todo. Gente que desempenha funções vitais como varrer as ruas, sepultar pessoas ou coletar materiais recicláveis, mas que, paradoxalmente, é ignorada pela maioria das pessoas. Ou pior, humilhada.
Os catadores, por exemplo, são responsáveis por quase 90% do lixo reciclado no Brasil, segundo o Ipea. No entanto, quantos de nós realmente reconhecem essa contribuição ao falarmos desses trabalhadores? Infelizmente, são poucos. Garis, entregadores, camelôs, ascensoristas, seguranças, garçons, cobradores, jardineiros, faxineiros, coletores, gandulas, entre outros, são trabalhadores invisíveis. Invisíveis como prestadores de serviços e ainda mais como cidadãos, ignorados em suas condições econômicas e materiais.
Essas pessoas desempenham seus papéis de forma silenciosa, muitas vezes sem reconhecimento. Donas de casa, babás, arrumadeiras de hotel, pedintes, malabaristas de faróis, entregadores em bicicletas, coveiros. Todos trabalhando, muitas vezes, cumprindo ordens de maneira silenciosa e completamente invisibilizados pela gestão, chefias imediatas, equipe de saúde e até mesmo pela população usuária que busca atendimento e assistência. Eles são desprovidos de cidadania social, técnica e trabalhista.
O trabalho doméstico e de cuidado, por exemplo, recai majoritariamente sobre mulheres e meninas ao redor do mundo. Esse tipo de atividade é conhecido como “trabalho invisível” porque não é remunerado, mas espera-se que as mulheres cumpram o papel de fazê-lo. Acompanhante de hospital é outra profissão lembrada apenas quando um parente está acamado e ninguém da família se apresenta para fazer essas vezes.
A invisibilidade não é apenas uma questão de não ver ou não reconhecer. Ela se manifesta de várias formas: econômica, racial, sexual, etária, entre outras. É o que acontece, por exemplo, quando um mendigo é ignorado de tal forma que passa a ser apenas mais um objeto na paisagem urbana. Profissões consideradas inferiores pela comunidade, sem diploma, status social ou prestígio econômico, são desempenhadas por trabalhadores que fazem o que poucos fariam.
É imperativo que a sociedade mude seus conceitos e dogmas. O reconhecimento da importância desses trabalhadores deve ir além do ambiente doméstico e familiar. Devemos enxergar esses profissionais como essenciais, reconhecer suas contribuições e proporcionar a eles condições dignas de trabalho e vida. Eles não são invisíveis; nós é que escolhemos não vê-los. E essa escolha deve mudar, para que possamos construir uma sociedade mais justa e igualitária, onde todos os trabalhadores, independentemente de sua função, sejam valorizados e respeitados.
Gregório José, Jornalista/Radialista/Filósofo


