* Pedro Abel Viera Júnior & Manoel Moacir Costa Macêdo
O modo de produção em uso nos sistemas produtivos agrícolas, envolve riscos e incertezas. A natureza histórica da atividade produtiva agropecuária está lastreada no ambiente natural e tem sido marcada por múltiplas restrições à própria sobrevivência. Ela carrega intrinsicamente a exposição aos riscos de várias espécies. Dos setores tradicionais da economia, como os serviços e a indústria, a agricultura é o mais desprotegido das intempéries. Entende-se como risco, "o conhecimento numérico, normalmente em percentagem sobre a probabilidade de ocorrência de um evento e a quantificação de seus impactos".
Entre outras classificações, os riscos na produção agropecuária podem ser qualificados em três grandes grupos: "de produção, de mercado e de ambiente de negócios". O primeiro, inclui as ações de manejo dos cultivos, expostos aos condicionantes de clima, da gestão e da probabilidade de eventos extremos, como secas, enchentes e incidências de pragas e doenças. O segundo, inclui as variações de preços de produtos e insumos, acesso ao crédito e os desafios do transporte e comercialização, principalmente no comércio exterior. O terceiro, inclui as políticas e instituições, a exemplo dos burocráticos impostos, marcos legais e regulatórios, acrescido da complexa infraestrutura e logística.
Diferente do passado, onde o monitoramento dos riscos era simples, previsíveis e controlados no estabelecimento rural, hoje, numa "mudança de época", globalizada e conectada em tempo real, o processo de produção, comercialização, distribuição e consumo das mercadorias agropecuárias é complexo e recheado de incertezas e artíficios. Muitos deles, fora da porteira da propriedade. Os grandes riscos na práxis, são desdobrados em riscos da infraestrutura e logística, sanitários, de crédito, ambientais, de mercado, comercialização, regulação, climático e de gestão. Uma arena global marcada pela competitividade e protecionismo, onde os intempéries naturais podem ser mascarados por modelagens, informações sensíveis, ciência, tecnologia e inovação, como fatores de produção estratégicos e deterministas nos ganhos de produção e produtividade dos sistemas produtivos. Uma utopia a meio século atrás, que busca aproximar o setor agrícola dos setores herméticos a alguns riscos no processo de produção.
Numa economia movida a expectativas, a capacidade de exposição ao risco difere entre os setores produtivos e dentro deles, a exemplo das competências empreendedoras dos empresários rurais e dos nichos de mercado dos pequenos e médio produtores, como estratégia de suportar os ganhos e perdas. No caso da agricultura, o labor produtivo é oneroso, direto no meio ambiente e intrínseco aos riscos e incertezas, quando comparado aos outros setores da economia, em particular, num tempo que está por vir, onde as atividades produtivas no campo, tendem a modificar ou até substituir o meio em que se estabelece.
Passam os anos e euforias de safras agrícolas recordes, no espectro de sucessos e crises, acertos e erros, numa infindável discussão sobre a necessária e urgente "política de gestão de riscos" para à produção agropecuária. A complexidade atual, exige uma mudança na lógica de incentivos e estímulos, além do crédito e financiamentos, como as principais ferramentas de política de produção agropecuária, para uma robusta e indispensável gestão de riscos, incluindo o seguro rural. A adoção de uma política de gestão integrada de riscos, além de possibilitar o aumento da eficiência das outras políticas públicas agropecuárias existentes, orientará o planejamento e a integração das ações voltadas, para a estabilidade no emprego e na renda do produtor rural numa produção agropecuária globalizada, financeirizada e capitalista.
* Pedro Abel Vieira Junior e Manoel Moacir Costa Macêdo são engenheiros agrônomos


