Segunda, 26 De Fevereiro De 2024
       
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Para onde vai a literatura?


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Publicado em 27 de janeiro de 2024
Por Jornal Do Dia Se


* Luciano Correia

Num dos programas que vejo no YouTube, o escritor Marcelo Mirisoladá um depoimento demolidor sobre o estado da arte da literatura, apontando para uma terrível conclusão: nessa quadra atual ela caminha apressadamente para a irrelevância.
Quem fala isso não é um Zé qualquer, mas um nome bastante festejado nos caldeirões mais efervescentes da literatura brasileira, apesar de sustentar uma posição de maldito, uma espécie de out-sider no mundinho bostífero das celebridades literárias que infestam as Flips da vida. E as Flips, como se sabe, tornaram-se quermesses comerciais para gozo & grana dos homens de marketing das editoras puramente preocupadas em vender, vender e ponto final. Porque a literatura bruta, esteio da produção criativa das grandes narrativas, essa mesma corre em outros lugares, paralelo ao teatro bufão dessas feiras. Sim, há outra patacoada muito mais daninha à literatura: são as academias de letras que pululam em todos os cantos, como pragas, cumprindo uma missão justamente contrária ao que se propõe, ou seja, de promover a produção literária e, sobretudo, desenvolver políticas de incentivo à criação artística, de renovação das linguagens, valorização do livro etc. Em vez disso, esses ridículos clubes de comedores de empada, no dizer de Amaral Cavalcante, funcionam como túmulo da boa literatura, com sua cafonice e seu bolor incrustados nas batas de seus pretensiosos acadêmicos.
Esse longevo escrevinhador de crônicas pede desculpas por ter cedido ao falso culto literário e ter entrado em uma delas, na cidade onde não nasci, mas me criei e com a qual mantenho laços profundos. De Itabaiana me interessa tudo, a começar pela minha maior paixão entre as paixões de um homem, a Associação Olímpica de Itabaiana. De sua vetusta academia não quero nem saber, e fiquem à vontade os que se arvorarem a propor minha expulsão. No meu caso, não fui parar lá por vaidade ou pelo brilho efêmero de seus saraus, mas atendendo ao apelo de um velho amigo, o historiador e escritor Vladimir Souza Carvalho, este sim, autor de fôlego, inventivo, um dos últimos na galeria dos grandes de Sergipe D’El Rey.
Voltando a Mirisola, cujos livros leio desde o final dos anos noventa, além de sua literatura às vezes ácida, ele também incorpora o papel de um encrenqueiro nato, com sua esculhambação e desprezo por gente como Caetano Veloso, Paulo Coelho e a própria Flip de Paraty, cuja edição de 2006 contou com sua apreciação de “escritor convidado”, um relato cáustico publicado na internet, porque o jornal que encomendara o texto, o Zero Hora de Porto Alegre, roeu a corda e se acovardou. Claro que essa atitude típica de franco atirador vende livros e rende bons lucros, sobretudo. Mirisola não joga para todos, mas para a plateia dele, da qual faço parte, mas sem o alarde dos macacos de auditório.
Mas o que menos importa aqui é saber se ele age por marketing pessoal ou não. Eu nem creio nisso. O relevante é sua visão sombria sobre os rumos da literatura, tragada pela onda comercial e banalizadora do mercado atual, despejando nas prateleiras títulos baseados em temas, formatos e linguagens pasteurizados. Isso sem falar na farsa da autoajuda e, mais recentemente, da onda politicamente correta e dos panfletos identitários, implantando uma reducionista política de cotas em tudo, cerceando abordagens que destoam de suas cartilhas e, com isso, incorrendo em novas formas de fascismo.
Que não deixemos de lembrar em cada artigo: a ação deletéria das bolhas, o ataque implacável e violento à figura do outro, a intolerância com as diferenças, isto não são propriedades da praga bolsonarista, mas também de uma certa esquerda que trocou as conquistas clássicas e a luta por justiça social pela fragmentação, pelas causas individuais e específicas em detrimento do todo, da totalidade, da busca de consensos. Num ambiente tão polarizado e patrulhado pelas mini-certezas de cada facção, sobra para a criatividade artística, com a literatura sendo uma das primeiras vítimas.
Contraditoriamente, justo no momento em que a humanidade dispõe de ferramentas que radicalizam a troca de conteúdos, o mundo sofre um lastimável empobrecimento cultural, daí o alerta de Marcelo Mirisola. No andar das coisas, leitor de livros vai se tornando um personagem esquisito, de hábitos estranhos, um fora de moda deslocado do seu tempo.
Trata-se do mesmo fenômeno que gradativamente vem precarizando o jornalismo e substituindo-o pelo vale tudo das redes midiáticas, que são tudo, menos sociais. Os jornais desapareceram no mundo inteiro e restam poucas empresas resistindo na medida do possível, após uma drástica redução do número de assinantes e de receitas publicitárias. O mesmo com as revistas. A própria radiodifusão, tão senhora de si até ontem, com poder de erguer e destruir governos, definha entre os públicos mais jovens.
Um teste rápido: quem, dessas novas gerações, ainda assiste telenovelas? Programas de rádio? Enfim, sós: seus apresentadores sensacionalistas e seus espetáculos, cada vez mais vazios. Com a erosão desse velho mundo analógico, o valor da cultura é ressignificado, quando não banido. Ser intelectual não diz mais nada para essa gente que domina a esfera pública, nos seus diferentes níveis, nem confere mais certo charme aos que posavam à frente de estantes. Os governantes, antes tão ciosos em manter pelo menos a aparência de alguma erudição verbal, hoje só pensam nas selfies junto às multidões que lotam suas micaretas o ano todo. É desse mundo que Mirisola desembarca para sua literatura insular. E do qual eu também pretendo descer.

* Luciano Correia é jornalista, presidente da Funcaju.

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