Rian Santos
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Uma primeira vez, ouso discordar do poeta. Filhos, melhor tê-los, sim. Especialmente, após os 40.
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Carregar um bebê nos braços, pra cima e pra baixo, o dia inteiro, exige mesmo a espinha ilesa de um homem jovem, admito. As recompensas da paternidade tardia, entretanto, superam os desconfortos irmãos da calvície e dos cabelos brancos – com ênfase no plural.
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Isso de lamber as crias eu faço direito. Também porque tornei-me pai depois de velho, quando já não tinha esperanças de transmitir nada a ninguém – bens, genes, memórias, livros, as lições machadianas da miséria.
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Às portas da morte, Amaral Cavalcante me pediu um livro emprestado, precisava se distrair durante as sessões de hemodiálise e estava cansado da própria biblioteca. Não pensei duas vezes antes de catar na estante o “Patrimônio” de Philip Roth. Só depois me dei conta de esfregar o fim já próximo nas fuças do amigo.
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“Patrimônio” é o único romance biográfico assumido pelo romancista. Nele, autor e personagem vivem o luto imposto pela morte do pai.
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Tenho contas a acertar com a indesejada das gentes. Mas não agora, com Inácio e Lorena sob as minhas asas. Na semana passada, troquei os pneus do carro, após negligenciar a necessidade evidente há vários meses. Atendi a uma sugestão do preto velho que vigia os meus passos e acena para mim nas curvas da vida, com um charuto pendurado no beiço. Ateu, graças a deus, de repente me dei conta: tenho dois filhos e a vida inteira pela frente.


