Proclamar o sonho

Na companhia dos iluminados(Arquivo)
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
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Proclamar o sonho, como faz agora uma exposição abrigada pela Galeria J Inácio, requer algo de louco, ou de poeta.
Já fui desses que acordam tarde, com o hálito amargo dos copos de ontem na boca. Assim, mesmo sem saber nada de Alfi Gristelli (ver nesta página), situo o artista na companhia dos iluminados.
Confesso minha ignorância sobre o artista, mas lembro uma entrevista do violonista Guinga, um compositor dos mais robustos. Ele vive no Rio de Janeiro, praticamente anônimo, apesar do reconhecimento mundial. E explica o relativo esquecimento a que parece ter sido relegado por sua própria gente com a sentença de um grande admirador, segundo quem a sua obra é póstuma!
A impressão faz sentido, aplica-se a verdadeiros artistas. Arthur Bispo do Rosário, por exemplo, era doido de pedra. Palestrava com os anjos, como todo mundo está cansado de saber. Deriva de altura assim impossível, eu aposto, a liberdade absoluta com que alinhavava tecidos, imagens, narrativas, indiferente às noções correntes de uso e beleza. Se hoje ele é tema de doutos debates, isto se deve à inesperada consagração nos grandes circuitos de arte. Em vida, verdade seja dita, o artista seria varrido dos salões e dos coquetéis dos bem-falantes e bem-vestidos – aos sopapos.
Alfi Gristelli ganha agora oportuna mostra individual, “in memoriam”. Estou curioso. Também ele, arauto do sonho, tudo indica, trabalhou para a posteridade.
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