Rian Santos
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Penso na cabeça branca de minha mãe, uma septuagenária, inteligente, lúcida. Antes de o inverno lavar a cor de seus cabelos, tantos janeiros, coube a ela plantar as primeiras letras, comunicar a dignidade da palavra escrita para meninos e meninas famintos de esperança – falo de pão e de saber, também.
A professora Eliene dedicou os melhores anos de sua vida, quando a própria juventude inspira coragem, à alfabetização dos filhos de trabalhadores pobres, crianças que iam à escola atraídos pela merenda, a fim de encher o bucho com bolacha e suco Tang. Ano após ano, a minha mãe repetiu o ABC, sem admitir derrota. Ano após ano, ela cumpriu o seu trabalho e municiou gerações inteiras para perseguir o futuro.
Minha mãe passou a maior parte de sua vida entre quatro paredes, em uma sala de aula. Até se aposentar. Ela não merecia, no outono da vida, ser assaltada por Belivaldo Chagas.
Assaltada, sim. Eufemismos de ordem burocrática, o rito corrompido no exercício do poder, não alteram a natureza dos fatos. Entre abril de 2020 e junho de 2022, o então governador Belivaldo Chagas passou a mão grande no dinheiro dos aposentados. O confisco de 14% dos vencimentos dos velhinhos não tinha precedentes, jamais contou com previsão legal. Ainda assim, foi autorizado pelos deputados estaduais, sem maior dificuldade.
Belivaldo tomou o dinheiro pouco dos aposentados e nunca o devolveu. O seu sucessor, o governador Fabio Mitidieri, por sua vez, faz de conta que o governo do estado não lhes deve nada.
Cínico e autoritário, Mitidieri se recusa a dialogar com o sindicato que representa os professores da rede estadual desde o início de seu mandato. Agora, às vésperas de um novo pleito eleitoral, terá de lidar com uma greve.
Deflagrada ontem, em assembleia convocada pelo Sintese, a greve tem as motivações mais justas. Entre as principais reivindicações dos professores estão a valorização salarial e o cumprimento de decisões do Supremo Tribunal Federal de interesse da categoria. Além disso, o sindicato também aponta preocupações em relação à gestão e transparência dos recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Segundo a entidade, há indícios de incoerência na prestação de contas do fundo.
Ainda é possível encontrar nas redes sociais um vídeo escandaloso. O governador, microfone em punho, se dirige aos professores representados pelo Sintese aos berros, com deboche e arrogância. Afirma trabalhar diariamente, enquanto os profissionais do magistério correm atrás de dinheiro.
Como se vê, Mitidieri desafia os professores há tempos.


