* Paulo Franklin
Uma das melhores lembranças da minha infância era quando nos reuníamos para fazer um bolo. O cuidado com o ponto certo da massa. A espera enquanto ele assava no forno. Esperar não era um problema, pois era necessário para o bolo crescer e ficar fofinho. Hoje, em uma sociedade que nos cobra velocidade, a espera se tornou um empecilho.
Olhe ao seu redor e perceba que quase tudo passou a funcionar no imediatismo: as mensagens que piscam na tela do celular, os resultados das vendas, o desempenho na escola, a presença na vida dos amigos. A vida virou uma corrida silenciosa em que quase ninguém pergunta para onde está indo, apenas se está indo rápido o suficiente. Nesse cenário, algo essencial costuma passar despercebido: o cuidado com a mente.
Nesse contexto, iniciativas como a campanha Janeiro Branco ganham profundo sentido. Nascida em Minas Gerais, fruto da ideia de um grupo de psicólogos, ela surge como uma proposta de iniciar o ano nadando contra a corrente da pressa e do resultado. A campanha nos lembra de algo simples e, ao mesmo tempo, difícil de praticar: é urgente cuidar de si.
Esse cuidado não está apenas no corpo. Academia, exames, alimentação saudável e hidratação são atitudes essenciais, mas não bastam. A mente, que sustenta o nosso “eu”, acaba ficando negligenciada diante dos demais cuidados. Ninguém será realmente forte, resiliente e funcional se não aprender primeiro a funcionar bem por dentro. Quando a mente vira um caos, todo o resto entra em colapso.
No meio do barulho do mundo não é fácil perceber o adoecimento mental. Ele costuma chegar sem alarde: um cansaço que não passa, uma irritação constante, a perda do prazer nas coisas simples. Surge a sensação de que estamos levando a vida, mas sem propósito. Tornamo-nos mestres em cumprir tarefas, mas estranhos à própria identidade.
O grande problema é que vivemos ocupados demais para perceber isso. O mundo aplaude quem produz, mas quem sente costuma ser visto como fraco. Experimente dizer que vai procurar um psicólogo e observe os olhares que falam sem voz. No meio de tanto preconceito e negligência com a mente, as pessoas vão silenciando suas angústias, engolindo frustrações e normalizando sintomas que não são normais: ansiedade permanente, culpa excessiva, medo do descanso, dificuldade de estar presente.
A escola nos ensina a ler e escrever, mas quase nunca a cuidar da mente. Em um mundo hiperacelerado, esse cuidado não é luxo, é necessidade. Forte não é quem nunca chora, mas quem assume responsabilidade pela própria saúde mental e decide enfrentar seus fantasmas interiores.
O Janeiro Branco nos recorda que não é preciso adoecer para aprender a parar. A vida se constrói na calma, não no esgotamento. Quem tem a saúde mental bem alicerçada consegue estar consigo, trabalhar sem se destruir, amar sem se perder e descansar sem culpa. Quem aprende a escutar o corpo e os pensamentos encontra paz mesmo num mundo que parece ter se perdido.
Se você teve tempo de ler este texto até aqui, já praticou algo raro. Em um mundo acelerado, talvez o verdadeiro ato de coragem seja desacelerar por dentro. É ter a calma de Jesus, que dormia no barco mesmo diante da tempestade, e a leveza de uma criança que ainda sabe sorrir no pouco. A mente, como qualquer parte da vida, também precisa de revisão, alinhamento e cuidado.
Portanto, nunca se esqueça: ganhar o mundo não é conquistar palácios, mas aprender a governar os próprios pensamentos e não ser refém dos medos. Se a pressa desviou você da rota da sua vida, lembre-se de que ninguém nasceu para viver no automático. Aprenda a se observar e a se libertar daquilo que não traz paz interior.
* Paulo Franklin é professor, advogado e psicanalista em Estância/SE


